Ângela Maria Pires denuncia alegado tribalismo na FRELIMO desde a sua fundação

Maputo — Declarações recentes da política luso-moçambicana Ângela Maria Pires, residente em Portugal, reacenderam o debate sobre a existência de tribalismo e regionalismo na liderança da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) desde os primeiros anos do movimento de libertação nacional.
As afirmações foram feitas numa publicação na sua conta oficial do Facebook, por ocasião das celebrações do 3 de fevereiro, Dia dos Heróis Moçambicanos, data que homenageia figuras históricas da luta de libertação nacional, incluindo Eduardo Mondlane, primeiro presidente da FRELIMO.
Alegações sobre sucessão após a morte de Eduardo Mondlane
Segundo Ângela Maria Pires, após a morte de Eduardo Mondlane, em 1969, a FRELIMO teria adotado critérios de natureza étnica e regional na escolha das suas lideranças. Mondlane, considerado o arquiteto da unidade nacional, era natural da província de Gaza, no sul de Moçambique, e pertencia à etnia changane.
De acordo com a política, após a sua morte, setores dominantes da FRELIMO não teriam admitido a possibilidade de um dirigente da etnia ndau assumir a liderança do movimento, alegadamente devido a tensões e hostilidades internas de caráter étnico.
O afastamento de Uria Simango
Ângela Maria Pires sustenta ainda que Uria Simango, então vice-presidente da FRELIMO e considerado o número dois do movimento após Mondlane, teria sido deliberadamente afastado da liderança. Em seu lugar, foi escolhido Samora Moisés Machel, também natural da província de Gaza e pertencente à etnia changane.
Na perspetiva apresentada por Ângela Maria Pires, esta decisão teria consolidado uma tendência de concentração do poder político em dirigentes oriundos do sul do país, em particular da província de Gaza.
Continuidade da liderança regionalizada
As alegações estendem-se igualmente ao período pós-independência. Segundo a política luso-moçambicana, após a morte de Samora Machel, em 1986, a liderança da FRELIMO e do Estado moçambicano passou para Joaquim Alberto Chissano, igualmente natural do sul de Moçambique e associado à mesma matriz étnico-regional.
Para Ângela Maria Pires, esta sucessão reforçaria a ideia de que, desde os primórdios do movimento de libertação, a FRELIMO teria privilegiado determinadas regiões e grupos étnicos em detrimento de outros, contrariando o discurso oficial de unidade nacional.
Um debate antigo e sensível
O tema do tribalismo e regionalismo na política moçambicana não é novo e tem sido objecto de debates académicos, políticos e sociais ao longo das décadas. A FRELIMO, enquanto partido no poder desde a independência em 1975, tem reiteradamente rejeitado acusações de discriminação étnica, defendendo a construção de um Estado baseado na unidade nacional e na superação das identidades tribais.
Até ao momento, não houve reação oficial da FRELIMO às declarações de Ângela Maria Pires. No entanto, as suas afirmações voltam a colocar em evidência feridas históricas ainda sensíveis na sociedade moçambicana, sobretudo num contexto de reflexão sobre o passado, a memória histórica e a inclusão política.

As declarações foram tornadas públicas no âmbito das comemorações do Dia dos Heróis Moçambicanos, data que tradicionalmente promove discursos de unidade, patriotismo e reconhecimento do sacrifício coletivo na luta de libertação nacional. A intervenção de Ângela Maria Pires surge, assim, como uma leitura crítica da história oficial desafiando narrativas consolidadas e incentivando um debate mais profundo sobre o passado político do país.

Ângelo Zacarias Manhengue

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