Turismo, estabilidade macroeconómica e disciplina fiscal impulsionam arquipélago; dependência extractiva e fragilidades institucionais travam aceleração moçambicana
Por Agostinho Muchave (Dados)
Cabo Verde voltou a posicionar-se entre as economias com melhor desempenho recente na África Subsaariana, com taxas de crescimento projectadas entre 4,8% e 5,1%, segundo o mais recente relatório do Banco Mundial. No mesmo período, Moçambique mantém uma trajectória de crescimento positivo, mas mais moderado e estruturalmente desigual, com estimativas situadas entre 4% e 5% em 2025–2026, evidenciando uma divergência que não é conjuntural, mas estrutural.
A leitura comparada dos dados dos últimos 12 meses revela dois modelos económicos distintos: um, baseado em serviços, estabilidade e previsibilidade (Cabo Verde); outro, assente em recursos naturais, com elevada volatilidade e dependência externa (Moçambique).
O desempenho cabo-verdiano continua ancorado na recuperação robusta do turismo, sector que representa mais de 25% do Produto Interno Bruto (PIB) e que voltou a níveis pré-pandemia. A estabilidade cambial, a disciplina fiscal relativa e a previsibilidade institucional têm sido factores determinantes para restaurar a confiança externa.
Nos últimos 12 meses, o país registou:
Contudo, a base produtiva permanece estreita. Cabo Verde continua dependente de importações de energia e bens alimentares, além da procura turística internacional. A dívida pública, apesar de algum alívio, mantém-se próxima de 100% do PIB — um nível elevado que limita o espaço fiscal.
Em contraste, Moçambique apresenta uma economia com maior dimensão e potencial de recursos, mas com menor eficiência estrutural. O crescimento recente tem sido impulsionado sobretudo pelos megaprojectos extractivos, com destaque para o gás natural na bacia do Rovuma.
Dados recentes indicam:
Apesar destes indicadores, o crescimento moçambicano não tem sido inclusivo nem suficientemente diversificado. A economia permanece vulnerável a choques externos, desde flutuações nos preços das commodities até instabilidade interna, como o conflito em Cabo Delgado.
A principal diferença entre os dois países não reside na disponibilidade de recursos, mas na qualidade da gestão económica.
Cabo Verde, mesmo sem recursos naturais relevantes, construiu uma economia baseada em:
Moçambique, por sua vez, apresenta:
Em termos práticos, Cabo Verde cresce menos em volume absoluto, mas melhor em qualidade. Moçambique cresce mais em potencial, mas perde eficiência na conversão desse crescimento em desenvolvimento.
A análise dos dados é clara: Moçambique não precisa reinventar a economia, precisa corrigir distorções básicas. Há pontos críticos que continuam a travar o país:
1. Ambiente de negócios disfuncional
A burocracia excessiva, a morosidade nos licenciamentos e a insegurança jurídica afastam investimento produtivo. Sem reformas administrativas profundas, o sector privado continuará limitado.
2. Dependência excessiva de megaprojectos
O crescimento baseado em gás e mineração não gera emprego suficiente nem dinamiza a economia interna. Falta ligação entre grandes investimentos e o tecido empresarial nacional.
3. Baixa diversificação económica
Agricultura, indústria transformadora e serviços continuam subdesenvolvidos. O país exporta matéria-prima e importa produtos acabados — um modelo clássico de dependência.
4. Défice de capital humano
Sem investimento sério em educação técnica e profissional, Moçambique continuará incapaz de absorver tecnologia e gerar valor interno.
5. Fragilidade institucional
Corrupção, instabilidade regulatória e falta de previsibilidade afastam investidores e encarecem o custo do capital.
Se pretende alcançar um crescimento robusto e sustentável — e reduzir a dependência externa — Moçambique terá de fazer escolhas claras e, sobretudo, executar reformas estruturais sem hesitação:
Cabo Verde prova que é possível crescer com poucos recursos, desde que haja disciplina, estratégia e instituições funcionais. Moçambique, com vastos recursos naturais, continua preso a um modelo económico dependente e pouco eficiente.
A diferença não está no que os países têm — está no que fazem com isso.
Sem reformas estruturais profundas, Moçambique continuará a crescer abaixo do seu potencial. Com elas, pode não apenas acompanhar Cabo Verde, mas ultrapassá-lo em escala e impacto económico na região.
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