Cerca de 27% das mortes em Moçambique são causadas por doenças não transmissíveis

Cerca de 27% das mortes em Moçambique são causadas por doenças não transmissíveis

As doenças não transmissíveis (DNTs) em Moçambique, constituem um problema grave de saúde pública, senndo responsáveis por cerca de 27% de todas mortes e por volta de  60% de todas as causas de incapacidade que ocorrem no país e um pouco por todos os países em vias de desenvolvimento.

Trazendo consequências no consumo dos serviços de saúde, bem como nos recursos económicos, a doença Cardiovascular (DCV) é a causa mais importante de morbilidade e mortalidade, tendo como principal factor de risco a Hipertensão Arterial (HTA). A prevalência da HTA é estimada em cerca de 35% a nível nacional, sendo maior nas cidades em 40,6% em relação a zona rural em 29,8%, aumentando com a idade.

A diabetes é também uma das maiores causas de doença e morte prematura, sendo responsável pelo aumento do risco para doenças cardiovasculares no país, a prevalência da diabetes na população com idade superior a 20 anos foi de 3,1% em 2003, e projectava-se um aumento para 3,6% em 2005. De igual forma, os cancros estão a aumentar a sua expressão nas causas de consulta externa e internamento no País: por exemplo, o número de consultas externas de oncologia no Hospital Central de Maputo (HCM) cresceu em mais de 50% nos últimos 3 anos, e a taxa de ocupação de camas tem ultrapassado os 100%.

Dados dos Serviços da Anatomia Patológica (SAP) do HCM nos períodos de 1991-2008 e 2009-2010 na Cidade de Maputo, mostram que nas mulheres os cancros mais frequentes são os do colo do útero (31%), da mama (10%) e do sarcoma de Kaposi (7%), nos homens, o sarcoma de Kaposi (16%), da próstata (16%) e do fígado (11%).

Devido ao crescimento do peso das DNTs no país, o consórcio CUAMM, Sant´Egídio e AIFO com apoio da Agência Italiana  de Cooperação e Desenvolvimento, em parceria com MISAU, estão a desenvolver um projecto com vista a aumentar a capacidade de resposta com relação a pacientes com HTA, Diabetes e Cancro de colo de útero, prevenção e controle destas patologias, através da sensibilização e educação das comunidades, para maior difusão e consciensalização sobre estas doenças e os respectivos factores de risco.

O principal objectivo e contribuição da AIFO no projecto, é a prevenção e controle de doenças não transmissíveis na província de Maputo, Zambézia e Sofala, através da educação e promoção de saúde a nível das comunidades, com o principal foco nos factores de risco para o cancro de colo de útero, diabetes e hipertensão arterial, para criar maior consciencialização nas comunidades locais e população no geral.

Elisa Comé Oficial de Campanha da Saúde no AIFO, actualmente desempenhando o papel de Coordenadora Interina no Programa Sobre Doenças não Transmissíveis disse que o workshop visava a harmonização da informação sobre comunicação e educação de doenças não transmissíveis que nos últimos tempos tem afectado a população, principalmente aqueles que vivem nas zonas rurais, e que uma vez negligenciada a informação sobre essas doenças, viu-se a necessidade de organizar um evento com duração de cinco dias, onde nos primeiros dois dias são aprovadas matérias que serão usadas na formação de formadores que iniciou no terceiro dia.

Elisa Comé acrescenta que o projecto piloto irá abranger três províncias das quais Maputo, Zambézia e Sofala numa primeira fase, uma vez que o ministério fez a escolha de acordo com as vulnerabilidades que residem nessas três províncias, porque as doenças não transmissíveis que são as mais negligenciadas como o câncer no colo do útero, Hipertensão, pois as pessoas que passam por essas doenças não tem informação, por isso a AIFO e parceiros viu a necessidade de promover a comunidade na sensibilidade e mobilização para que as pessoas possam aderir às unidades sanitárias que serão posteriormente respondidas pelo Sant’ Egídio e Cuam na componente clínica dessas demandas que foram provocadas a nível das comunidades abrangidas.

Elisa disse ainda que em cada província serão formados cinco técnicos onde os mesmos deverão formar 174 agentes polivalentes elementares, incluindo actividades que farão os trabalhos nas comunidades na parte da mobilização e conscientização das pessoas sobre os riscos que essas doenças trazem e garantir que os utentes procurem os serviços sanitários  nessas três provincias abrangidas nessa fase piloto.

Elisa Comé frisou que desde a implicação desse Projecto a AIFO registou avanços significativos das palestras feitas de Maio até então, “há muitas melhorias na procura desses serviços sanitários por utentes devido as auscultações feitas a nível das comunidades”, disse.

Isabel Keshavji Chefe do Programa de Doenças não Transmissíveis no MISAU disse que a escolha desse ângulo é simplesmente porque essas doenças são colocadas a parte, “temos a diabete, cancros, hipertensão, doenças cardiovasculares, Asmas que são mais comuns na comunidade, sendo que as alergias e Asmas, açúcar no sangue são os primeiros sinais a aparecer depois de doenças crônicas, que normalmente são as mais negligenciadas, primeiro pelo estado ambiental em que as pessoas vivem e depois por maneiras de alimentação.

Isabel acrescentou que a nível do país houve um dobro das doenças não transmissíveis, porque durante anos só foram observadas doenças crônicas, como Lepras, Malária, Tuberculose e deixando de fora as diabetes que aumentaram em cerca de 7.4%, o que normalmente estão envolvidas a Malária e outras patologias, por isso a necessidade de trabalhar com a comunidade que ela realmente poderá trazer os casos mais graves que devem ser olhados desde a base, “essa é a necessidade de formação de agentes polivalentes das comunidades”, disse.

A AIFO junto ao MISAU, está a promover um workshop para o desenho de materiais de apoio sobre DNTs para os APEs que estarão directamente envolvidas na implementação deste projecto nas 12 Unidades Sanitárias escolhidas: C.S. Coalane, 17 de Setembro, Mugeba e Hospital Rural de Mocuba (Zambézia). C.S de Lamego, Mutua, Nhaconjo, Macurungo e Hospital Rural de Nhamatanda (Sofafa) e por fim, C.S.Sabié, Moamba sede, Matola C e São Dâmaso (Maputo Província).

De lembrar que foi lançado o relatório Nacional 2018, no dia 30 de Julho de 2019 sobre doenças não transmissíveis, em que desde 2006 o Governo de Moçambique definiu as DNT como uma das prioridades nos planos quinquenais, tendo as incluído na Declaração de Política Nacional de Saúde. Foram priorizadas Doenças Cardiovasculares, Diabetes, Doenças Respiratórias Crónicas (Asma), Cancro (Colo Uterino, Mama e Próstata) e Trauma. Foi criado o Programa Nacional de Controle de DNT na Direcção Nacional de Saúde Pública, com pontos focais a nível provincial. O sistema de vigilância epidemiológica para DNTT está em fase de construção. Foi estabelecido o registo de Trauma no Hospital Central de Maputo (HCM) em 2000, e nos outros Hospitais Centrais em 2004. Seguiu-se a introdução de instrumentos de registo e notificação de casos de hipertensão e diabetes, mas não existe ainda recolha de dados de rotina para alimentar o SIS, nao havendo por isso informação sobre a carga de doença ou sobre custos. Para perceber o financiamento dedicado a estas doenças apenas se podem fazer inferências a partir de dados globais do sector saúde.

Hipertensão Arterial (Cerca de 27% das mortes em Moçambique são causadas por doenças não transmissíveis

Estudos usando a metodologia da OMS (WHO stepwise approach) em 2005 e 2015 mostram uma tendência crescente da prevalência de hipertensão arterial em Moçambique de 33% para 39% nas pessoas com idades compreendidas entre 25 e 64 anos. A prevalência da hipertensão arterial foi menor entre indivíduos que tinham completado a educação primária quando comparados com aqueles sem instrução (23% vs. 38%), e não foi encontrada diferença na prevalência de tratamento entre áreas urbanas e rurais. A análise da cascata de despiste, diagnóstico, tratamento e controle da hipertensão arterial mostrou que apenas 16% dos indivíduos hipertensos tinham conhecimento prévio de sua doença e sómente 7% dos individuos estavam em tratamento farmacológico.

Diabetes Mellitus (Cerca de 27% das mortes em Moçambique são causadas por doenças não transmissíveis) 

Cerca de 27% das mortes em Moçambique são causadas por doenças não transmissíveis Entre 2005 e 2015 houve um aumento de 2,6 vezes na prevalência de diabetes em Moçambique (de 2,8% a 7,4%). A maior prevalência foi observada na província de Gaza e Inhambane (16,3% e 20,2%, respectivamente), enquanto as proporções mais baixas foram encontradas nas províncias de Tete, Sofala e Niassa (todas abaixo de 3%). A prevalência de diabetes foi maior em indivíduos com educação primária em relação aqueles com educação secundária (8,4% vs. 7,8%), sendo os homens mais afectados que as mulheres (9,5% vs. 6,0%).

Doenças cardiovasculares (Cerca de 27% das mortes em Moçambique são causadas por doenças não transmissíveis

Usando os modelos da CGD em 2015, cerca de 1,4 milhão de pessoas sofrem de DCV em Moçambique. A cardiopatia reumática seria a condição mais frequente (14% dos casos), a doença cardíaca isquémica foi a segunda condição cardiovascular mais prevalente, sobretudo em indivíduos com idade igual ou superior a 45 anos. Outras causas importantes de morte por DCV identificadas pelo modelo CGD são o acidente vascular cerebral (AVC) e a cardiopatia hipertensiva. Estudos hospitalares realizados em Moçambique mostram mortalidade por cardiopatia reumática e cardiomiopatias muito acima da causada por cardiopatia isquémica, e indicam que a insuficiência cardíaca aguda e AVC sao causas importante de admissão hospitalar e incapacidade. As DCV negligenciadas são também frequentes em Moçambique, como é o caso das miocardiopatias que afectam população jovem; em 2007 foi encontrada prevalência elevada de fibrose endomiocárdica em meio rural.

Anemia  (Cerca de 27% das mortes em Moçambique são causadas por doenças não transmissíveis

O inquérito demográfico e de saúde de 2016 revelou prevalência elevada de anemia (63,8%) em crianças até 5 anos. Mais de 75% das crianças na província de Cabo Delgado e Zambézia são anémicas. A Carga Global de Doença (CGD) que estima a presença de anemia por deficiência de ferro em 66% dos lactantes e 43% das crianças de 1 a 5 anos em Moçambique, resultante de parasitoses e/ou hemólise resultante de malária.

Doenças respiratórias crónicas

Um estudo realizado há alguns anos mostrou que cerca de 13% das crianças dos 6 aos 14 anos na Província de Maputo eram asmáticas e 23% tinham rinoconjuntivite alérgica ou eczema; 4% tinham todas as três condições atópicas em conjunto; a rinite foi mais frequente e grave em ambientes urbanos, enquanto o eczema foi significativamente mais recorrente nas áreas sub-urbanas e semi-rurais. A OMS estima que a prevalência de DPOC em Moçambique seja inferior a 1%, mas em 2015 causou mais mortes do que a asma.

Cancro (Cerca de 27% das mortes em Moçambique são causadas por doenças não transmissíveis

O Globocan estima que ocorreram em 2012 em Moçambique 22.014 novos casos de cancro e 17.017 mortes por cancro. Os cancros do colo do útero e da mama representaram juntos cerca de 50% de todos os cancros da mulher, enquanto nos homens o cancro mais frequente foi o sarcoma de Kaposi (33%). O cancro foi responsável por cerca de 1% das mortes estimadas para o período 2007-2008 em Moçambique e as neoplasias foram a quinta causa de óbito hospitalar, representando 4,7 % das mortes intra-hospitalares no país de 2009 a 2011. Um estudo realizado com base em casos diagnosticados no Serviço de Anatomia Patológica do Hospital Central de Maputo (SAPHCM) de 1991-2008 indica que para Maputo, os cancros mais frequentes foram nos homens o cancro da próstata, o sarcoma de Kaposi e o cancro de fígado e nas mulheres, o cancro colo do útero, o cancro da mama e sarcoma de Kaposi. Seis porcento dos cancros ocorreram nas crianças entre os 0 e 14 anos. No hospital de referencia (Hospital Central de Maputo) as principais causas de cancro sólido em pacientes pediátricos são linfoma de Burkitt, tumores de osso malignos e rabdomiossarcomas representando 25%, 12% e 10% dos casos, respectivamente.

Saúde mental (Cerca de 27% das mortes em Moçambique são causadas por doenças não transmissíveis

Mais de 9 milhões de pessoas em Moçambique possuem alguma forma de transtorno mental ou abuso de substâncias, mais frequentemente cefaleia crónica, enxaqueca e transtorno depressivo maior. Um estudo na província de Sofala mostrou que epilepsia, esquizofrenia e condições relacionadas ao estresse correspondem a 49%, 22% e 9% dos casos assistidos em ambulatório em unidades sanitárias. A alta prevalência de epilepsia em áreas rurais pode ser causada por cisticercose endêmica em algumas zonas de Moçambique. Distúrbios convulsivos, psicoses e atraso mental foram mais prevalentes nas zonas rurais em relação a ambientes urbanos. Em contraste, psicose orgânica, uso de drogas, esquizofrenia e transtornos do humor são mais prevalentes em áreas urbanas.

Traumatismos e Violência (Cerca de 27% das mortes em Moçambique são causadas por doenças não transmissíveis

Estima-se em 3,7 milhões o número de traumatizados em 2015 em Moçambique, tendo resultado em 19,312 mortes. Um quarto dos traumatismos correspondeu a violência colectiva. Cerca de 6% das mortes não-naturais no Hospital Central de Maputo foram causadas por arma de fogo, sobretudo em homens com 20 a 39 anos; os acidentes de viação foram responsáveis por apenas 2% (N=96,973) de todos os traumatismos, mas representavam mais de um quarto (N=5,353) das mortes no país e 44% das mortes por trauma na cidade de Maputo; as outras causas comuns de mortes por trauma são por feridas por arma de fogo e queimaduras. A maioria das mortes ocorreu em homens (proporção de 3:1) e no grupo etário dos 20 aos 29 anos. O consumo de álcool esteve ligado a um terço dos acidentes rodoviários, 39% dos casos de violência física e um quarto das quedas.

O trauma foi causa de 12% dos internamentos pediátricos em três hospitais públicos de referência na cidade de Maputo; quedas, queimaduras e acidentes de viação corresponderam a 41%, 20% e 14% das admissões hospitalares, respectivamente.

Registo Hospitalar Integrado Simplificado

A testagem de um modelo simplificado de registo hospitalar de DNT alvo da estratégia global de prevenção e controle entre Fevereiro de 2014 e Janeiro de 2015, no serviço de urgência de um hospital urbano de referencia primária, mostrou que 18862 pacientes (21% dos assistidos num ano) apresentavam pelo menos uma DNT. Destes, 12439 pacientes apresentaram-se com traumatismos (2/3 das DNT registadas, 14% de todas admissões). Dos 6423 pacientes com DNT não traumática 37% apresentava hipertensão arterial, 1495 (23%) tinha asma aguda e 1195 (19%) apresentou disturbios mentais.

Registo de Trauma Hospitalar

A Direcção Nacional de Assistencia Médica e o INS testaram um sistema de registo de trauma nos serviços de emergência dos hospitais de referência da Cidade de Maputo e Matola, tendo analisado 15.103 pacientes admitidos no período em 12 meses. Houve predomínio de doentes do sexo masculino (9363; 62%) na sua maioria entre 20-29 anos de idade (27%). A maior parte dos doentes chegou ao hospital usando veículo privado (37%); apenas 5% chegou de ambulância. Os mecanismos mais frequentes de lesão foram queda (4530; 30%), agressão física (3323; 22%) e colisão envolvendo veículos automóveis (2870; 19%) – sobretudo carros (73%), mas também motociclos (6%) e bicicletas (1%). Em 75% dos casos a lesão foi não intencional; trauma intencional ou por agressão foi encontrado em 18% dos casos e autoinfligido em 2%, não havendo informação em 5% dos registos. Dos registos com dados sobre o local do trauma (69%) verificou-se que 39% ocorreram no domicilio, 13% em transporte público e 10% no local de trabalho. A maioria dos pacientes traumatizados (95%) foi tratada nos serviços de urgência e teve alta

A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera que doenças não transmissíveis – também designadas doenças crónicas – são alterações do estado de saúde que não se transmitem de pessoa para pessoa, ou por outras palavras, não são contagiosas.

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Angélica Miranda, nome profissional e mais conhecido nos meandros do Jornalismo, é uma jovem moçambicana formada em Jornalismo e Comunicação pelo Instituto Técnico de Moçambique entre os anos 2016 e 2018. Começa a escrever e fazer o jornalismo na prática a 08 de Janeiro de 2018 na rádio Voz Coop como Estagiária e segue para uma outra fase na colaboração com o Semanário Jornal Visão, escrevendo matérias de relevo relacionadas com Economia, Saúde, Gênero e Mulher. Enquanto isso, Angélica Miranda continuou na aprendizagem sobre Rádio e chega a produzir um programa sobre trânsito no qual privilegiou o contacto directo com os automobilistas colocando temas em debate semanais. Da produção deste programa torna-se no princípio de 2019 Chefe de Redacção da Rádio Voz Coop onde passa a colaborar na produção de conteúdos radiofónicos virados para notícias, reportagens e programas diversos. Atualmente é colabora invicta do Jornal Visão, semanário que virou febre aos olhos dos moçambicanos pois é produzido por uma equipa completamente e 100% jovem, inovadora e dinâmmica.

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