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Economistas Alertam Para Riscos de Desvalorização do Metical em 2027

A eventual desvalorização de cerca de 30% do metical no início de 2027, prevista pela consultora britânica Oxford Economics no

A eventual desvalorização de cerca de 30% do metical no início de 2027, prevista pela consultora britânica Oxford Economics no âmbito de um possível acordo de ajustamento financeiro com o Fundo Monetário Internacional (FMI), poderá aumentar o custo das importações, pressionar as contas públicas e reduzir o poder de compra das famílias, segundo os economistas Constantino Marrengula e Teresa Boene.

A Oxford Economics considera que a deterioração das finanças públicas e a escassez de moeda estrangeira estão a pressionar a estabilidade macroeconómica de Moçambique e prevê que um eventual acordo com o FMI possa ser acompanhado por uma desvalorização de aproximadamente 30% do metical. Segundo a consultora, uma desvalorização desta dimensão aumentaria imediatamente, em meticais, o preço dos produtos importados, podendo exercer pressão adicional sobre a inflação e o poder de compra das famílias.

Entenda o caso

Para Teresa Boene, economista e pesquisadora em políticas públicas do Centro de Integridade Pública (CIP), este seria um dos primeiros efeitos a fazer-se sentir na economia, uma vez que o aumento do custo das importações afectaria directamente as empresas dependentes de produtos, matérias-primas e equipamentos provenientes do exterior.

“Para um país muito dependente de importações como o nosso, o impacto mais rápido é o encarecimento das importações em moeda nacional”, explicou. Segundo Teresa Boene, o aumento dos custos suportados pelas empresas tende depois a ser repercutido nos preços pagos pelos consumidores.

A subida dos preços poderá afectar sobretudo os agregados familiares de menores rendimentos, que destinam uma parcela significativa do orçamento à alimentação, aos combustíveis e aos transportes. “Com salários e rendimentos que não se ajustam ao mesmo ritmo, as famílias perdem poder de compra e reduzem o consumo”, afirmou.

Assim, além de encarecer os produtos, a desvalorização poderá reduzir a quantidade de bens e serviços que as famílias conseguem adquirir com o mesmo rendimento.

Constantino Marrengula, economista e antigo investigador do Centro de Aprendizagem e Capacitação da Sociedade Civil (CESC), apresenta, contudo, uma perspectiva diferente sobre o impacto da desvalorização na inflação. Na sua avaliação, parte desse efeito poderá já estar reflectida nos preços praticados na economia, devido à utilização do mercado paralelo por empresas que enfrentam dificuldades para obter divisas.

“Talvez haja alguma mudança marginal na inflação, uma pequena mudança na inflação”, afirmou.

Para o economista, esta situação está relacionada com a diferença entre a taxa de câmbio oficial e a praticada no mercado paralelo. Uma eventual desvalorização da taxa oficial poderia reduzir esse diferencial e aproximar os dois mercados.

“O primeiro efeito é a aproximação dessas duas taxas de câmbio. Isso melhora um pouco a intermediação entre os dois mercados e minimiza a informalidade”, explicou.

O CIP tem igualmente alertado para o desalinhamento cambial e para a escassez persistente de divisas, considerando que a manutenção de uma taxa oficial estável num contexto de falta de moeda estrangeira tem contribuído para distorções no mercado cambial.

“Com salários e rendimentos que não se ajustam ao mesmo ritmo, as famílias perdem poder de compra e reduzem o consumo”

Mas os efeitos de uma eventual desvalorização não se limitariam às famílias e às empresas. Constantino Marrengula avançou que o Estado seria também directamente afectado, sobretudo pelo aumento do custo da dívida externa.

“O serviço da dívida pública passa a ser mais alto. Serão precisos mais meticais para pagar a dívida pública externa”, afirmou.

Teresa Boene explicou que, quando a dívida está denominada em moeda estrangeira, uma desvalorização aumenta o montante que o Estado precisa de desembolsar em meticais para cumprir as mesmas obrigações, mesmo sem contrair nova dívida.

A pressão sobre as contas públicas poderia ser agravada pelo aumento do custo dos bens e serviços adquiridos pelo Estado. “Um aumento dos preços significa encarecimento das despesas públicas. Significa passar a ter de despender mais para proporcionar menos e, no geral, significa um aperto cada vez maior do espaço fiscal”, disse Teresa Boene.

Ou seja, com despesas mais elevadas, o Estado teria menos margem para financiar outras áreas, num contexto em que a Oxford Economics já aponta para o elevado peso dos salários e dos juros nas receitas públicas.

A situação cambial poderá também continuar a afectar a actividade das empresas. Um estudo do CIP sobre a escassez de moeda estrangeira concluiu que a restrição persistente de divisas tem estado associada a limitações nas importações, aumento dos preços, redução da actividade económica, agravamento do défice fiscal e crescimento da dívida pública.

A investigação, baseada em dados de 1990 a 2024 e em entrevistas com empresas dependentes de importações, mostra que a falta de divisas pode produzir efeitos que ultrapassam o mercado cambial, afectando a actividade empresarial e o bem-estar das famílias.

Entre os sectores mais expostos a este cenário, Teresa Boene destacou a saúde, o comércio, os transportes, a construção e a agro-indústria, sobretudo empresas que dependem de matérias-primas, equipamentos ou outros produtos importados.

“Empresas com dívida em moeda estrangeira e sem receitas em divisas enfrentam risco adicional de balanço”, explicou.

Para a economista, a redução dessa vulnerabilidade passa pelo reforço da produção interna, da industrialização e da capacidade exportadora, de modo a diminuir a dependência das importações e a necessidade de moeda estrangeira.

Possível acordo com FMI poderá aliviar pressão cambial e reforçar confiança na economia

Apesar dos custos que uma correcção cambial poderia provocar no curto prazo, os dois economistas admitem que a medida poderá produzir alguns efeitos favoráveis a médio e longo prazo, caso esteja associada a um programa credível com o FMI.

Teresa Boene considera que a correcção poderá “reduzir a sobrevalorização do metical, aliviar a escassez de divisas, eliminar as filas para o pagamento das importações” e facilitar a reconstituição das reservas. O CIP também tem defendido uma maior flexibilidade cambial como parte das medidas destinadas a reduzir as vulnerabilidades externas e macroeconómicas do País.

O que acontece agora

Na mesma linha, Constantino Marrengula considerou que um eventual acordo com o FMI poderá melhorar o acesso de Moçambique à moeda estrangeira e reforçar a confiança dos investidores.

“A primeira coisa que um acordo com o FMI desbloqueia é o acesso à moeda externa que precisamos”, afirmou.

Na sua avaliação, o acordo poderá também sinalizar aos investidores a existência de um programa económico credível e criar condições para uma maior confiança na gestão macroeconómica do País.

A eventual desvalorização surge, entretanto, num momento em que a Moody’s colocou Moçambique no nível Caa3, uma classificação associada a um risco elevado de incumprimento e a uma possível reestruturação da dívida externa.

Teresa Boene considerou que a descida do rating poderá afectar sobretudo investidores que actuam fora dos grandes projectos de recursos naturais, como os sectores da indústria transformadora e dos serviços, mais dependentes das condições macroeconómicas.

Constantino Marrengula, por sua vez, distingue esses investidores dos que estão ligados aos recursos naturais, que, segundo explicou, podem atribuir maior peso às condições específicas dos projectos e à estabilidade necessária para operar.

Deste modo, uma eventual desvalorização de 30% teria efeitos distintos nos vários sectores da economia, desde o aumento do custo das importações e do serviço da dívida externa até possíveis alterações no acesso a divisas e nas condições de investimento.

Para Teresa Boene, o principal desafio será evitar que a correcção cambial provoque uma deterioração prolongada do rendimento das famílias e da actividade empresarial. Constantino Marrengula salientou, por outro lado, que a aproximação entre as taxas de câmbio oficial e paralela poderá ajudar a corrigir parte das distorções actualmente existentes no mercado cambial.

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Fonte original: diarioeconomico.co.mz

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