MILITARES PRENDEM E TORTURAM CIVIS EM BOQUISSO

MILITARES PRENDEM E TORTURAM CIVIS EM BOQUISSO

O conflito de terra entre a população e as Forças de Defesa de Moçambique no bairro de Boquisso no Município da Matola, província de Maputo que se arrasta a vários anos continua e já há registos de graves violações de Direitos Humanos. No corrente ano, militares afectos ao Quartel de Boquisso detiveram e torturam três (03) civis envolvidos neste braço de ferro, o caso mais recente foi registado nesta semana. Além das detenções e torturas, as militares apontaram armas as populações, confiscaras bens como material de construção entre outros, e destruíram propriedades da população.

Os três (3) civis detidos pelos militares em Boquisso são todos eles jovens, dois dos quais fazem parte do grupo da “Comissão dos Moradores” envolvidos nas negociações deste conflito de terra. E um faz parte da estrutura do bairro e é responsável por convocar as reuniões da comunidade para as negociações. Os dois jovens da comissão de negociação foram detidos e mantidos em cativeiro durante varias horas em duas unidades das Forças de Defesa, uma conhecida por “Engenharia” e no Quartel de Boquisso.

Detidos no período manhã por voltar das 07 horas, foram levados a Unidade de “Engenharia” e foram transferidos ao Quartel onde foram libertos por volta das 19 horas. As torturas que iniciaram na “Engenharia” continuaram também no interior do Quartel. Os mesmos além de serem torturados pelos militares, foram obrigados a fazer uma declaração por escrito de que não poderão mais fazer parte da comissão dos moradores. No momento da declaração foram chamados de “agitadores” e foi com esta designação que produziram a declaração.

Fui levado detido pelos militares por volta das 7 horas, vieram a te minha casa e levaram-me. Eles diziam que eu sou um dos agitadores no bairro nesta disputa de espaço, me levaram por eu fazer parte da comissão dos moradores e me torturaram por varias horas e eu não sabia se iria sair de lá vivo. Primeiro tudo aconteceu na Engenharia e depois no Quartel, me obrigaram a declarar que não serei mais agitador e se isso acontecer a coisa ficar mais complicada da minha parte. Sofri muito naquele dia na mão dos militares”, contou uma das vítimas conhecida por “Blake”.

O mesmo aconteceu com o outro jovem membro da mesma comissão de moradores. Nesse dia Blake presenciou de longe a captura do seu companheiro e não pode se aproximar porque já havia recebido o aviso ameaçador. No mesmo dia, os militares apontaram armas, vandalizaram propriedades e destruíram algumas residências da população antes mesmo de levarem um dos membros da comissão de negociação do conflito.

 “Dias depois foi a vez do meu amigo, eu me distanciei e eles não me viram. Se tivessem visto me, eu também seria levado junto e comigo seria diferente porque eu já estava marcado, e com uma declaração feita de que não faria mais parte da comissão. O meu amigo também fez a mesma declaração e foi torturado por várias horas”, disse Blake.

Já a terceira vítima dos militares chama-se Filipe Cumaio, este é o responsável por convocar a reunião dos moradores para a discussão para a busca de solução desta problemática. A situação deste cidadão foi a mais grave, o mesmo foi detido simplesmente por ter tocado a Trombeta, um instrumento usado naquela comunidade para convoca-la a uma reunião. Os militares começaram a espanca-lo no seio da comunidade até a unidade de Engenharia e transferido depois para o quartel onde foi brutalmente espancado também.

Depois do quartel, a vítima foi transferida para a Esquadra de Boquisso e quando a população dirigiu-se até a Esquadra para resgata-lo foram informados que o mesmo havia sido transferido para a esquadra de T3. Filipe Cumaio pernoitou na esquadra de T3 e só liberto no dia seguinte quando teve a oportunidade de explicar em que circunstância teria sido detido. Explicando o ocorrido, a vítima foi questionada pela polícia se o conflito entre militares e a população não havia cessado, e este disse que não. O mesmo foi liberto depois que a polícia apercebeu que este não havia cometido nenhum crime, segundo as declarações dos nativos que acompanhavam o desenrolar desta problemática.

Prenderam o jovem e bateram violentamente nele só por tocar a Trombeta. Logo cedo ele tocou para recordar a população que estava na hora do encontro para discutirmos este problema. Foi batido nas duas unidades das Forças de Defesa por onde passou, e quando passou para as mãos da polícia não foi batido. Transferiram-lhe logo de imediato da esquadra de Boquisso para a esquadra do bairro T3, e quando íamos ao encontro dele no dia seguinte ele foi liberto porque a polícia viu que ele não cometeu nenhum crime”, disse um nativo que bem conhece o único deste conflito e participou de todos processos das negociações do espaço.

O jornal Visão soube das populações do referido bairro que este conflito teve o seu início no ano de 2012, mas que tempos depois o mesmo cessou quando houve um consenso entre ambas as partes. Passado algum tempo o conflito reiniciou, em 2017 os militares voltaram a invadir as residências da população exigindo que estas abandonem o local em disputa. De lá ate cá, o clima vivido naquela zona residencial é de extrema tensão, e a população vive na insegurança.

Este problema deve-se a tentativa de usurpação de terrenos pertencentes a população, onde os militares afirmam que os espaços em disputa pertencem as Forças de Defesa de Moçambique. O Jornal Visão sabe que uma parte do espaço em disputa já foi usado pelas Forças de defesa no período da guerra dos 16 anos entre a Renamo e o governo da Frelimo.

Apesar das Forças de Defesa terem usado aquele espaço para acomodarem a força terrestre para reforçar a base antiaérea que encontrava-se no mesmo bairro, o espaço antes pertencia a população. Para implantar a nova força no espaço popularmente conhecido actualmente por “Engenharia”, o Comando da KaTembe foi quem pediu a população para que possa ceder o espaço para tal.

Importa referir que com o fim da guerra civil este espaço foi devolvido aos legítimos proprietários, onde foram ditos que poderiam fazer o que bem pensar e que as forças de Defesas não precisavam mais. As populações voltaram a ocupar o espaço depois do processo de desminagem e alguns desde populares estiveram e assinaram os documentos de entrega.

As Forças de Defesa invadiram o zonal residencial está semana e com uma Pá-Escavadora fizeram um novo parcelamento, ocupando novas propriedades. Os novos espaços usurpados pelos militares já tem novos proprietários não conhecidos pela população.

Mais de 15 famílias poderão ficar sem as residências nos próximos dias de acordo com o novo parcelamento. As residências já construídas na sua maior parte com energia elétrica e água canalizada e outras ainda em construção serão demolidas segundo a informação passada pelos militares a população. A insegurança tomou conta das famílias afectadas que sentem-se abandonas pelas autoridades locais da Matola e da Província de Maputo.

O conflito entre a população e os militares passou por várias fases. O Jornal Visão vai trazer os contornos deste conflito na próxima edição (121) de sexta-feira (11 de Setembro), onde irá destacar a participação da Edilidade da Matola, da Assembleia Provincial de Maputo, do Vice-Ministro da Defesa e os dois Militares que lidera os desmandos neste conflito.

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Perfil do Editor

Nádio Taimo
Nádio Taimo
Editor-chefe do Jornal Visão.
Iniciou com a sua carreira Jornalística na Imprensa escrita em 2016 no Jornal Times of Mozambique. Conta com um prémio Jornalístico, 2º lugar do (Prémio Jornalístico sobre Cooperativismo Moderno - 2019 na categoria de Imprensa Escrita, organizado pela AMPCM. Já passou por vários jornais nacionais e trabalhou também como correspondente internacional.

Nádio Taimo é também Apresentador e Produtor de programas de Rádio, Redactor Publicitário e Escritor. Já ganhou um Prêmio "Poeta Revelação 2015". Contribui para o desenvolvimento das Comunidades de baixa renda como um agente Cívico, activista de Direitos Humanos, formado em liderança cívica pela Unisa Graduate School of Bussiness LeaderShip-SBL Alumni através do Yali na África do Sul.
Conta com outras formações como Acção Social, Empreendedorismo e Negócios, Técnico Médio de Comunicação e Multimédia, entre outras. ~

Nasceu a 06 de Novembro de 1995 na província de Maputo - Cidade da Matola - Moçambique, local onde fixou sua residência atual.

É comprometido com seu trabalho e família.

Editor-chefe do Jornal Visão. Iniciou com a sua carreira Jornalística na Imprensa escrita em 2016 no Jornal Times of Mozambique. Conta com um prémio Jornalístico, 2º lugar do (Prémio Jornalístico sobre Cooperativismo Moderno - 2019 na categoria de Imprensa Escrita, organizado pela AMPCM. Já passou por vários jornais nacionais e trabalhou também como correspondente internacional. Nádio Taimo é também Apresentador e Produtor de programas de Rádio, Redactor Publicitário e Escritor. Já ganhou um Prêmio "Poeta Revelação 2015". Contribui para o desenvolvimento das Comunidades de baixa renda como um agente Cívico, activista de Direitos Humanos, formado em liderança cívica pela Unisa Graduate School of Bussiness LeaderShip-SBL Alumni através do Yali na África do Sul. Conta com outras formações como Acção Social, Empreendedorismo e Negócios, Técnico Médio de Comunicação e Multimédia, entre outras. ~ Nasceu a 06 de Novembro de 1995 na província de Maputo - Cidade da Matola - Moçambique, local onde fixou sua residência atual. É comprometido com seu trabalho e família.

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