O Ladrão tem bom espaço para operar - Cuidado para não ficar na pobreza em 2020 | Jornal Visão

O Ladrão tem bom espaço para operar – Cuidado para não ficar na pobreza em 2020

O Ladrão tem bom espaço para operar - Cuidado para não ficar na pobreza em 2020

“LOGO QUE FOREM EMBORA!”

Isso mesmo! “Só queremos que deixem as casas”, cito um ladrão amigo. No Choupal vive um amigo da infância chamado Goty, diminutivo de Tingote. Nome que parece ter recebido de um tio chamado Tinga.

Goty saiu da Beira há mais de vinte anos. Estamos a falar de ’92. Partiu para Maputo em busca de alternativas de ganhar a vida. Em todo o país os jovens deixaram a aldeia e partiram para a capital. Sine die de regresso.

Goty, a quem também chamávamos “kid”, ficou carismático no bairro da Ponta-gêa, cá na Beira, por causa da sua capacidade de dançar “breakdance” e “beat”. Havia na Beira confrontos entre os bairros. Os dançarinos se encontravam nas boites para fazer apostas e competição. O bairro de Matacuane vencia os outros todos, excepto Ponta-gêa, que lhes fazia passar longas noites de treino.

Dois anos depois as danças foram sendo substituídas por outras tarefas. Os grupos praticavam exercícios quase militares para estar em forma e tirar nicotina dos pulmões. O cigarro fê-los viciar e, pouco a pouco, partiram para algo mais forte, tipo suruma “tchamba”.

Kid acabou formando uma espécie de gangue. Escutavam MC Hammer, ou Bob Marley, sentados em semi-círculo a beira da estrada. Era atraente vê-los debater músicas como “Redemption Songs”. Entretanto, para mim, tornava-se cada vez mais arriscado sentar-me naquela roda. As conversações terminavam noutro patamar, e de repente passava uma beata de suruma acesa “uma passa”, e qualquer tentativa de a recusar era motivo de violência.

Tempos antes, houve na Beira bandidos que fizeram escola de, digamos “luta livre”. Andavam armados com canivetes, e batiam qualquer quasimodo que lhes cruzasse o caminho. Tinhamos desordeiros como Dua, Txoti, Susse, entre outros. O mais temível deles era um tal de “Jack Donald”, que aos nossos ouvidos de criança soava “Jeque-Dona”. Esse queria Hernâni, o Karateca mais violento a nível do país. “Preciso de ti Hernâni” convidava ele nas suas incursões pela cidade. Todo mundo entrava casa adentro para deixá-lo passar.

Kid começou a se mostrar um líder natural. Em sua volta gravitavam poderes e fidelidade. Armas de fogo de mão a mão por entre as estribeiras, e já assaltavam cooperantes brancos, sem deixar vestígios, algo profissional. Tipos temíveis como “Zito Captania” e “Jojó”. Alguns deles eram filhos de oficiais do exêrcito de alta patente.

Em ’92 Kid foi viver em Maputo, onde se encontra até agora. Semana passada estive em Maputo a trabalho e calhou estar frente a frente com ele no Zimpeto.

– Meu Deus és tu?
– Puto dá um abraço, tas big e barregudo, quase não te reconhecia – respondeu com a voz baixa e muito lenta.
– Também quase te não reconhecí grande Kid.

Estava com um aspecto de drogado, olhos vermelhos, capazes de colocar em pânico um ser humano. Entretanto ainda saudável. A primeira vista podia mesmo acreditar que ele era capaz de me matar com um golpe de canivete. Mas foi um amigo de verdade. Nada a temer. Dizia eu no íntimo, para ganhar coragem.

Eu sabia que a minha frente estava um monstro. Dele, acompanhara já estórias de prisões, roubos e assassinatos. A irmã, que vive cá na Beira, costumava contar filmes incríveis. A todo tempo esperava ouvir que o seu irmão fora finalmente morto pela polícia. Era só uma questão de tempo.

– Quando vens a Beira rever o pessoal?

Esta pergunta tocou o seu coração. Viu em mim os seus irmãos, que não via há muitos anos. Começou a dizer coisas terríveis.

“Tás a ver aqueles gajos ali de pé (era um grupo de seis homens), consegues ver? Respondi-lhe afirmativamente. E continuou. São meus dogs. Uma parte deles. Passamos o ano inteiro a programar roubos em série a começar do Chopal. Conheces Chopal? Ya. Tenho informantes em todos os bairros, alguns são guardas nocturnos. Temos uma lista de todo o pessoal que viaja para as festas. Estamos agora a tratar dos carros que deverão transportar aparelhagens na noite do serviço. No dia 31 e 1 estaremos a recolher nas casas cujos donos viajaram. Em muitas delas temos já cópia das chaves, não teremos que arrombar nada. Não vou desperdiçar essa oportunidade de distração geral para ir desperdiçá-la visitando family na Beira. Eu vivo disso. Não te assustes Quinho, a gente não mata pessoas, quanto muito cães de guarda”.

Terminou assim: “Só estamos a espera que viajem. Logo que forem embora!”

(Goal) Autor Desconhecido, mas se lhe valeu algo esta informação, partilhe com os demais?

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