O que leva uma criança ao trabalho de cobrador de chapa 100  ?

O que leva uma criança ao trabalho de cobrador de chapa 100 ?

São mais de 300 mil crianças que estão envolvidas no trabalho infantil, na cidade de Maputo, das quais cerca de 74% se dedicam ao comércio informal. A informação foi avançada, pelo director do Trabalho da Cidade de Maputo, Jafar Buane.

Diversos trabalhos informais são feitos por crianças desde o mais simples até o mais perigoso para se autos sustentarem, sem medo percorrem quilómetros com seu instrumento de trabalho para mais um dia difícil. 

Dentre eles estão os pequenos cobradores do transporte público chamando na sua linguagem vulgar (chapa). Crianças que arriscam suas vidas, diariamente para transportar todas pessoas, e por muitas vezes estão sujeitas a encarar o perigo quando o transporte está superlotado. Pendurados sobre a porta do carro, sem qualquer tipo de segurança tanto emocional quanto fisicamente, acima de tudo ela é uma criança que não foi instruída à lidar com esse trabalho. 

A nossa equipe de reportagem saiu à rua para saber dos munícipes sobre o assunto. No qual a nossa primeira entrevistada foi Natália Paulino, que diz “Meu corpo arrepia ao lembrar do sucedido há semanas. Vi um garoto dos seus 12 anos no transporte colectivo vulgo chapa, da rota Malhazine-Museu, ele gritava perdido chamando pessoas para subir o transporte, foi arrepiante e de estragar o dia de qualquer um. O lugar de criança é brincar, ter um crescimento saudável”. Lamenta Natália.

A nossa segunda entrevista foi Anifa Sitóe em choque ela conta o sucedido “eu tenho um filho, e não imagino ele nessas situações. É arrepiante e ao mesmo tempo nojento. Mais talvez ele não tenha condições e a única maneira de se sustentar é essa. É uma situação difícil. Quando cruzo com esses casos, eu não subimos o chapa fico constrangida e com muita pena. Tenho um filho e não quero que ele passe por isso. É doloroso ” lamenta a fonte.

A nossa equipe de reportagem não parou por aí. Conversamos com Neide Siquice que diz “A realidade Moçambicana é lamentável, são poucos os casos ou talvez vários mais nunca prestamos atenção porque estamos preocupados connosco, com o nossos problemas e fingimos que nada vemos, muitos adolescentes trabalham nisso, mas como eles tem aparência de adulto achamos que ele é um adulto, mas é o contrário, percebemos pelas dificuldades que o mesmo tem de se comunicar, o gesto e o respeito é notório e tranquilizador”. Esclarece a fonte.

Rezilda Lopes disse que não imagina a dor dessa mãe que teve que o deixar fazer isso para o auto sustento da família, talvez ele seja o irmão mais velho, seja órfão de pais. “É triste e lamentável, mais isso acontece. Uma vez vi um adolescente cobrando, estava cansado e triste seu semblante era de dor distante de tudo como se ali não fosse seu mundo. Não podemos julgar, não sabemos o que se passa na cabeça deles. Mas não é bonito de se ver”, lamenta a fonte.

A nossa equipe de reportagem conversou com o Doctor Flávio Mandlate Médico psiquiatra. Para explicar que influências negativas para a criança ou adolescente o trabalho infantil principalmente o de cobrador. O psiquiatra afirma que as crianças não estão preparadas para exercer funções como cobrador ou outras tarefas, “porque todo o indivíduo passa por diferentes fases psicológicas e por aquilo que podemos considerar maturidade psicológica, só é atingida a partir dos 18 anos pois é considerada fase em que o indivíduo pode responder por si e assumir certas responsabilidades. Antes dessa idade considerada, o indivíduo não está preparado para assumir certo tipo de responsabilidade, uma delas é a económica na qual o indivíduo deve produzir renda para a família”, revela.

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Mandlate, lamenta que por causa das condições socioeconómicas de muitas famílias Moçambicanas, adolescentes sejam obrigados a entrar no mercado de trabalho em busca de rendimento, antes da considerada idade de maturidade psicológica. O psiquiatra considera que algumas crianças acabam no mercado laboral por pressão das famílias ou por conta da pobreza. “As crianças se apercebem muito cedo de que os pais não tem capacidade para custear seus estudos, umas ou abandonam à escola para poder se envolver em actividades de rendimentos outras por ter essa facilidade de adaptação acabam continuando com os estudos mas criando condições através de meios próprios de se envolverem nesse tipo de actividade de renda para custear suas despesas.

Flávio Mandlate, revela que “teoricamente não é normal que esses adolescentes tenham que trabalhar e estudar para sustentar sua família e seus estudos. Mas porque as condições socioeconómicas não permitem, acaba infelizmente surgindo esses tipos de condições que temos estado a ver nas nossas sociedades”, explana.

“Indo concretamente para o aspecto de ser cobrador antes da idade, de facto a questão não é só ser cobrador mas em outras actividades como à venda de produtos em público, a criança de certa forma acaba ficando exposta. Ela têm de lidar, um público sobre tudo exigente, onde cada um trás seus problemas, temperamento e carácter e, às vezes não olham aquela pessoa como sendo adolescente ou como sendo criança e ela acaba tendo que lidar e sofrendo pressão das pessoas com quem ela lida por conta da profissão em que está a exercer”.

Mandlate conta que se for questionado se isso tem alguma consequências em termos psicológicos,  responde que “sim tem, há aquelas crianças que tem alguma capacidade de resiliência, isso pode favorecer para que elas amadureçam antes do tempo, mas infelizmente para aquelas que não tiverem uma boa capacidade de resiliência acabam sofrendo traumas psicológicos e que isso pode resultar ou em doenças mentais um desvio de conduta,  actos de crimes ou até o consumo de substâncias psicotrópicas”, revelou Mandlate.

A seguir as perguntas abertas vamos acompanhar uma entrevista para esclarecer ainda mais o assunto ser cobrador na adolescência.

Lízia Moiane – P: Dr. quantos casos recebe ou já atendeu no seu consultório?

Flávio Mandlate – R: Normalmente lido com adultos, poucos casos são crianças, mais aqui no hospital tenho estado a receber casos de consumo de substâncias psicotrópicas e infelizmente a maior parte destes iniciam o consumo na fase da adolescência e início da juventude antes dos 18 anos. Muitos desses jovens tiveram mesmo que abandonar à escola, para além de exercer actividades de cobrador ou outros que estão na rua como vendedores, carregadores de mercadorias de grandes mercados é porque a principal ocupação de rendimento para ajudar a família só que o ambiente às vezes favorece que esta criança ou adolescente sejam expostos ao consumo muitos não directamente mais de uma forma indirecta acabam se envolvendo em consumo de substâncias psicotrópicas, acabando por envolver-se em crimes.

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A tarefa de ter que produzir renda para família muitas vezes contribui para o desvio ou até exposição da criança chegando a desenvolver até doença mental.

Lízia Moiane – P: Por que as famílias não procuram o acompanhamento psicológico para essa criança?

Embora a parte do acompanhamento psicológico desta unidade de saúde (hospital psiquiátrico de Infulene) disponível, é gratuita para toda população. Infelizmente a maior parte da família que expõe suas crianças a vulnerabilidade de estarem na rua, de vender produtos ou trabalhar como cobrador ou outro tipo de venda, muitas das vezes estas famílias não estão cientes de que precisam de colocar esta criança a ser acompanhada por psicólogo infelizmente. Porque também não reconhecem a necessidade de que esta criança precisa de um acompanhamento psicológico, embora possam reconhecer que esta criança tem a necessidade de frequentar escola, ter que gozar o direito de ser criança ou adolescente, mas por conta da pressão da pobreza, muitas vezes, muitas das famílias acabam expondo, pressionando esta criança a ter que muito cedo envolver-se nessas actividades de produção de renda. Por mais que esses adolescentes sejam acompanhados infelizmente esse acompanhamento acaba surgindo numa condição em que a criança já está a desenvolver alguma doença mental.

Após uma breve entrevista com Flávio Mandlate, Psiquiatra, a nossa equipe de reportagem conversou com Adulfo Mucoque, Sociólogo, o qual refere que há necessidade de se olhar para o transporte público vulgo chapa como um espaço social, onde esta criança acaba sendo manipulada pela identidade social”.

Mucoque afirma que é um número reduzido de casos de crianças que trabalham como cobradoras de “chapa”, pois a questão da manipulação da própria identidade social não pode se deixar de lado. “Por isso temos que olhar também para a questão da própria socialização que essa mesma criança envolvendo-se num mundo de chapas 100, em algum momento ela é socializada ou por outra esta criança está diante de uma actividade que a sociedade condena, porque todo cobrador é visto como um marginal.

O Sociólogo diz ainda que o ser humano é muito reflexivo, antes de agir, pensa. “Esta criança tendo conhecimento que está num espaço social e tem de lidar com pessoas mais velhas (utentes) ela acaba tendo comportamentos que deixam a desejar, e, esse comportamento é uma estratégia que o mesmo adopta para se impor diante dos seus utentes, para mostrar que é ele quem manda como uma forma de ser respeitado”.

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Questionado sobre as implicações que isso pode trazer para o desenvolvimento desta criança o sociólogo responde que “ele tem aquele comportamento desviante no seu local de trabalho, mas na sua casa ele pode ser um jovem comportado, calmo e compreensivo. Mas só pelo facto de estar a exercer uma actividade em que nós condenamos ou que a sociedade condena, porque cobrador é visto como um marginal, um indivíduo transgressor das normas sociais por isso existem cobradores que deixam a desejar”, relata a fonte.

AS CONSEQUÊNCIAS DESSE TRABALHO

Esta criança pode faltar com o respeito devido o meio com que se encontra. Na sua opinião a actividade que o mesmo exerce não tem nada de errado, mas o problema está nas pessoas que o rodeiam. “O que é criança para mim pode não ser criança para si ” claro estamos diante de uma sociedade onde uma criança deixa de ser criança aos seus 18 anos. Por essa criança ser cobradora acaba por ser marginalizada, nós não podemos avançar com juízo de valores e julgar essa criança. Devemos olhar por detrás e questionar o que a leva a estar ali? Aí temos que recuar para a estrutura familiar para ver como é, pois pode ter motivação económica, está lá a cobrar chapa 100, a espera de algum ganho. Existem crianças que em casa desempenham papel de adultos como pai da família. Hoje em dia há uma disputa enorme para o exercício daquela actividade e essa mesma criança acaba usando uma estratégia para ter seu espaço”, conta-nos o Sociólogo.

É ético que esta criança deixe de estudar para ser cobrador?

Não vou avançar com conflitos de valores, o que pode ser ético para si pode não ser para mim. Cada um dá importância com o que se identifica. É certo que a sociedade condene por o mesmo deixar de ir à escola para cobrar, em algum momento há quem valoriza aquela actividade.

Com as opiniões dos dois profissionais sendo Psicólogo e Sociólogo foi possível perceber que realmente há mais julgamento social e condenação desta criança do que outra coisa.

O trabalho infantil existiu em diferentes níveis na maior parte da história. Durante o século XIX e início do século XX, muitas crianças de 5 a 14 anos de famílias mais pobres ainda trabalhavam na Europa, nos Estados Unidos e em várias colônias de potências europeias. Essas crianças trabalhavam principalmente na agricultura, operações de montagem em casa, fábricas, mineração e serviços. Alguns trabalhavam turnos noturnos com duração de 12 horas. Com o aumento da renda familiar, a disponibilidade de escolas e a aprovação das leis contrárias ao trabalho infantil, as taxas de incidência de trabalho de crianças caíram.

Mas persiste a exploração desta mão-de-obra que devia estar na escola aprendendo.

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