“O Sofrimento de um Povo Endividado”

20 de Dezembro; 7 horas e 45 minutos da manhã… 
Estava num chapa que fazia a rota Museu/Malhazine, enquanto
contemplava minuciosamente aquela paisagem verde, arredores de Missão Roque. O
meu destino, por aquele momento, era Malhazine, donde partiria para Museu.



Foi quando durante aqueles meus apaixonantes minutos de
contemplação à paisagem, escutei, primeiro com bastante reprovação e
depreciação, mas depois com muita atenção e curiosidade, os comentários dos
meus homólogos passageiros, os quais também faziam as tão famosas e aderidas “ligações”.
Os seus comentários giravam à volta da quadra festiva, mas
afincadamente do fim-do-ano e consequente entrada no ano novo – o ano 2018.
Um deles, o qual fez “ligações” às correrias pois pensava
que o “chapa” pudesse arrancar bem antes da sua chegada, entrou eufórico, com
estilo de quem nas suas entranhas dizia “sou bom na corrida dos 800 metros.”
Este foi acomodar-se na cadeira dupla, atrás do motorista (acredito que ambos
se conheciam dalgum lugar), e abordou-o dizendo:
-comé mano? Só nos restam poucos dias, para darmos entrada
no novo ano, o que preparaste? Eis que o condutor do “chapa” das barras verdes,
com visíveis letras garrafais inerentes à sua rota, trovejou uma gargalhada e
retorquiu:
_-meu bro, novo ano p’ra quê? Preparar algo com que tako em
tempos amargos como os de hoje. Os tempos são outros, completou.
De imediato, o passageiro que o abordara respondeu:
-Tens toda a razão, brada! Hoje em dia, quando se está à
vista um novo ano, a gente já não se alegra, pelo contrário, lamenta.
_A pergunta que sempre grunhe alto é igual a “o que daremos
aos nossos filhos nesta indesejada fase?”.
Uma vez que este utente estava numa cadeira dupla, o seu
companheiro que estava doutro lado só se encheu de risadas, e ansiosamente
pediu explicação da frase “a gente já não se alegra, só lamenta”, o que com
prontidão o seu comparsa respondeu:
-Como a gente se vai alegrar se é mais um ano de sofrimento?
Se é mais um ano de alto custo de vida, sem dizer que
entraremos para o novo ano sendo ainda devedores, o que significa que vamos
para o 2018 endividados.
_Meu amigo, ainda não percebeste que, por causa de “alguns
tipos”, somos um povo endividado? Tais contraíram dívidas avultadas, cujo
pagamento reside no suor, no sofrimento do povo.
Doutro lado, o cobrador, tal como exige a sua função, não
hesitava em cobrar os 7 e 9 meticais dos seus passageiros, enquanto cantava,
sarcasticamente, a música “La famba bicha”, do saudoso músico Jeremias Nguenha.

No mesmo chapa, à semelhança da minha pessoa, alguns
funcionários públicos que se destinavam aos seus postos de trabalho
mostravam-se identificados com os comentários que ali saíam. Logo, imaginei que
muito provavelmente
lamentassem, dentre vários aspectos, o salário absurdo que
recebem e as condições em que exercem as suas funções.
Assim, tanto o condutor e seu cobrador, quanto os dois
passageiros dialogantes, eu e aqueles empalidecidos funcionários, com suspiros
de revolta e lamentações, continuámos a nossa viagem, num chapa que, circulando
em estrada esburacada, ia semeando doenças respiratórias e auditivas, devido à
fumaça demasiado preta e ao barulho estridente que do qual emanavam.
…já no meio do destino atrasado e bem “molhado” na famosa
paragem Malanga sobe mais um passageiro e desta vez um estudante, que aos sussurros
se apercebe das lamentações ao fundo de alguns companheiros de viagem e sem
assento entra na conversa: – sabem, esta vida não é fácil para ninguém,  eu que não trabalho até chego a me sentir
culpado por pedir dinheiro de “chapa” e dizem que próximo ano vão aumentar para
15 Meticais…
De repente o Cobrador escutou a frase do estudante e já foi
respondendo: _*até essa “chibaba”(dinheiro) não é nada bro(irmão, amigo, ….
em fim) devíamos cobrar 20 meticais, combustível está todo dia a subir e o patrão
não baixa a receita, aliás, só aumenta…
O chapa ficou num silêncio do tipo hora de oração no
cemitério, o cobrador havia naquele instante fechado a torneira de ideias e
pensamentos e(a boca dos outros) no mesmo momento estava próximo o meu destino
e pedi ao cobrador paragem electricidade.

Realidade de  quem é
moçambicano de verdade.
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LEIA  Fresquinha e Quente a Edição nº 26 da semana do semanário Jornal Visão
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