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SER POBRE NÃO IMPLICA SER HUMILDE

SER POBRE NÃO IMPLICA SER HUMILDE

Variadas vezes, acreditamos, nós os leigos de valores sociais, que a humildade está associada ao respeito, ao sentimento de pequenez em relação ao outro, mesmo sabendo que tal hierarquia, na verdade, não existe.
Humilde é, ainda, considerado todo aquele que se põe, insistentemente, a agradecer por tudo quanto lhe chega dos outros, e até pelo que não lhe foi dado – um devota autêntico do braço estendido, que vive com o pensamento cego e confiante que, cedo ou tarde, o braço se pode estender com uma bandeja de recompensas, aliás, ofertas.
De uma ou de outra forma, é assim que somos e vivemos  todos nós – uns políticos civis em campo de ganha-pão, como diz o meu prezado amigo e irmão, Ricardo Mutita, no seu texto – “Boladas de Cá” que, agora, já faz parte de uma antologia (merecidos parabéns): “uns vamos comer aonde.”
Contudo, errado não estávamos em, assim, calcularmos as coisas. Éramos e continuamos sendo uma prova exacta de humildade – construída à nossa maneira, e ninguém, antes, havia, nos instruído isso. Viramo-nos, como disse, à nossa maneira – a maneira que os sem-sucessos apelidam de “lambe-botas.” Ah, até parece novidade este adjectivo que, em nós, vive desde o colonialismo, Aphartheid, enfim, desde a escravatura – a escravatura  que o próprio homem negro se impôs a vivê-la – o complexo de pobreza diante de quem nos pode dar uma esmola.
Oh, se até hoje, continuamos escravos de nós mesmos, pobres de nós próprios, humildes da nossa própria humildade, dos nossos interesses projectados a favor da soberba humana. Humildes de pobreza e pobres de humildade. Ah, sim – somos todos humildes.
Parecendo brincadeira, mas nunca ninguém se ousou a ensinar-nos a sermos humildes. É uma humildade com sabor à natureza, desde os tempos do Adão e Eva, sempre fomos humildes. Quanto à maçã, foi tudo culpa da fome, da pobreza. A ideia era mesmo essa: ser como Deus em imagem e semelhança para dividir as tarefas. Nada de avareza.
Nada de avareza, basta só olhar para os mendigos da terceira idade por todos os cantos da cidade para sentir este paradoxo de humildade.
Arson Armindo
Author: Arson Armindo

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