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Tiro tribal de Chipande e a assunção do fracasso da construção da nação moçambicano

O antigo combatente da Luta de Libertação Nacional, Alberto Chipande, a quem a história lhe atribui a autoria do primeiro tiro que deu início à luta contra o colonialismo português, insurgiu-se, ontem (Televisão de Moçambique), durante uma palestra aos jovens da Frelimo contra a tribalização da administração pública. Segundo ele, a administração pública é constituída por linhagens tribais.

“Você há-de ver num ministério, uma fila da mesma tribo (sic). Eu fiquei escandalizado, sabe, quando vi aquele TRIBUNAL ali, naquela tenda ali (julgamento do caso das dívidas ocultas). A maioria são do sul. Desculpa lá. Maronga e manhambana, e machangana de Gaza. Um pouco txu, foram buscar mwanachuabo ali. E outros deixaram aonde? Macondes e macuas, senas e ndaus? É isto?” (Chipande, in TVM, 24/07/2022)

A mensagem de Chipande encerra uma ambiguidade. Primeiro, não se percebe se está a defender que o tribunal que está a julgar o caso e a respectiva procuradoria deviam ser constituídos por juízes e procuradores de todas as regiões ou se está a defender que devia haver nos autores das dívidas ocultas pessoas doutros grupos como ndaus, senas, macondes, macuas, entre outros. Quer numa como noutra interpretação, os pronunciamentos de Chipande são bastante graves e reveladores de que o projecto de construção da nação, defendido por Samora foi abandonado e morto.

Se está a defender a segunda interpretação de que até na corrupção dever haver representatividade tribal, estamos lixados. Estamos lixados porque o caso das dívidas ocultas é o mais vergonhoso da história de corrupção em Moçambique. Defender a inclusão ou quotas nos actos de corrupção é, no mínimo, um comportamento de quem perdeu a consciência dos valores do Estado e do partido que ele mesmo participou na sua construção desde o início.

Se está a defender que os tribunal e Procuradoria estão constituídas por pessoas do sul de Moçambique, Alberto Chipande está a ser ingénuo, intriguista, manipulador e perigoso para a estabilidade sócio-política do país . E está a assumir que o partido de que é membro do Comité Central e da Comissão Política desde que foi fundado há 60 anos tomou decisões orientadas para o tribalismo. Está igualmente a assumir que o Estado de que ele é peça chave e detém o poder de influenciar no processo de tomada de decisão fracassou completamente no processo da construção do Estado-Nação.

Moçambique foi, desde 1975, governado por um único partido: a Frelimo. Nunca houve governo da oposição que a Frelimo pudesse atribuir-lhe a culpa pelo estrangulamento do seu projecto de construção do Estado Nacional. Foi sempre a Frelimo.

Chipande não precisava que Afonso Dhlakama morresse para lhe dar razão. É que esta alegação de sulização do país foi sempre o cavalo de batalha de Afonso Dhlakama. Na altura se dizia que Dhlakama estava a tentar fazer aproveitamento político.

Quando o tribalismo é destilado por um herói nacional da primeira linha, um membro do Comité Central da Frelimo e da Comissão Política, um antigo ministro e governador, isso sinaliza o que país não tem mais futuro. O futuro vai ser de conflitos tribais, em que o sul será o culpado de todos os males do país. Ora, essa é visão míope de quem não tem ou que finge não ter a dimensão dos problemas do país. Para o conhecimento de Chipande, a província de Gaza, dos tais machanganas de Gaza, é a mais pobre de Moçambique com uma despesa mensal por agregado familiar de 4.977 MT e uma despesa mensal per capita (por pessoa) de 1008 MT. Seguem-se Nampula e Zambézia com despesas mensais por agregado familiar de 5238 e 5380 MT e uma renda mensal per capital de 1124 e 1132 MT, respectivamente (IOF, 2021).

Tomar Maputo como todo o sul do país é o erro, não apenas metodológico como de concepção. O mesmo erro que fez com que a Frelimo, em 47 anos de independência, não conseguisse perceber que Maputo não é Moçambique. Por isso, foi concebendo os planos de desenvolvimento (se é que existiram) tomando Maputo como todo o país. É assim que se pensa neste país. A culpa de Gaza e Inhambane é justamente por se localizarem próprio a Maputo.

A concepção de Maputo como Moçambique foi e continua determinante na alocação dos grandes investimentos em Maputo. O projecto Ponte Maputo – Catembe e a respectiva circular consumiu investimento provavelmente suficiente para a reconstrução da Estrada Nacional Número 1. Pelo menos os troços problemáticos. Esta visão foi e está a ser responsável pelo êxodo dos jovens dos distritos e de todas as províncias para Maputo em busca de melhores oportunidades. Hoje, temos as cidades de Maputo e Matola e os distritos arredores (Marracuene, Boane, Namaacha, Matutuine, Moamba e Manhiça), com crescimento populacional juvenil assustador. É que, todas as oportunidades estão em Maputo e nunca houve descentralização dessas oportunidades.

O primeiro maior problema da Frelimo foi centralizar o ensino superior e o sector de saúde. No sector de Saúde, os melhores hospitais estão em Maputo. O Hospital Central de Maputo ainda recebe doentes provenientes de outras províncias.

Durante muitos anos, as melhores universidades públicas (mais acessíveis à maioria das populações jovens) estavam centralizadas. A Universidade Eduardo Mondlane só existia em Maputo. Idem em relação à extinta Universidade Pedagógica. A Universidade Joaquim Chissano continua em Maputo. Isto significava que qualquer que quisesse fazer o ensino superior tinha que criar condições para abandonar o seu distrito e província para Maputo. No final da formação, as melhores oportunidades estavam em Maputo. Por isso, raramente regressavam aos seus distritos. Ainda hoje, as melhores oportunidades de formação continuam em Maputo.

Vamos imaginar um jovem de Mocímboa da Praia, Palma, Ibo (Cabo Delgado), de Memba, Moma, Angoche (Nampula), de Ngaúma, Marrupa (Niassa), de Massangena, Chicualacuala e Chigubo (Gaza), de Mabote, Funhalouro (Inhambane), de Ile e outras zonas de Zambézia, Sofala, Tete e Manica, que concluísse a 12ª classe e quisesse seguir o ensino superior, e essa oportunidade apenas estava em Maputo. Como faria? É aqui onde Gaza e Inhambane tinham maiores vantagens do que as restantes províncias, devido à sua proximidade com Maputo. Era mais fácil um pai em Gaza ou Inhambane vender duas ou três cabeça de gado para suportar os estudos do filho numa universidade em Maputo do que um pai nas províncias de centro e norte do país. Ademais, grande parte das famílias em Gaza e Inhambane tinham as minas e farmas sul-africanas como fonte de suas rendas para custear as despesas dos seus filhos nas universidades de Maputo. E não só, tinham sempre um familiar ou conhecido que pudesse acolher o seu filho. Foi assim comigo. Caso contrário não teria estudado até onde cheguei.

O que quero dizer com isso? Quero dizer que se temos uma administração pública cheio de pessoa do sul, como afirma Chipande, isso é, certamente, reflexo da política da Frelimo de privilegiar Maputo como Moçambique e ignorar as províncias. Por isso, todas as oportunidades foram sendo concentradas em Maputo, onde há maior concentração de pessoas do sul por razões óbvias de proximidade geográfica e de procura de melhores oportunidades e condições de vida. Até hoje, isso é visível. Ontem Tete empregava mais pessoas que vinham de Maputo do que os locais. Palma tinha mais pessoas a trabalhar nas multinacionais e nas empresas que prestam serviços a elas, provenientes de Maputo do que de Pemba, Macomia, Mocímboa e da própria Palma. Hoje, há muita gente de Maputo que sai para concorrer a vagas noutras províncias. Isso não é tribalismo. Não podemos criar essa confusão. Isso acontece porque as pessoas que se vêm formando em Maputo têm melhores oportunidades de estudos do que as de outras províncias. Gaza e Inhambane são também vítimas desse fenómeno.

De quem é a culpa disto tudo? A culpa é de Chipande e sua companhia que durante 47 anos da Frelimo no poder não conseguiram redistribuir as oportunidades pelas províncias. Não conseguiram distinguir Maputo de Moçambique. Foram concentrando tudo em Maputo.

Por outro lado, entendo este argumento tribal de Chipande como mobilização regional inserida no processo de sucessão política na Frelimo, no sentido de se evitar que a partir do sul surjam candidaturas à sucessão do Presidente Filipe Nyusi. Chipande está a emitir sinal para dentro da Frelimo de que estão atentos aos ventos que sopram do sul e os seus agitadores devem desistir dessa intenção de se envolver no barulho de sucessão interna, porque esse é assunto do centro e norte. Ou seja, está a alertar que se isso vier a acontecer, não haverá problemas de mobilização regional contra o sul. São processos internos de um partido que podem colocar o país todo em conflito.

Chipande não é gago, não é ingénuo, não perdeu suas faculdades mentais. O que ele diz é resultado de conversas dentro das alas do partido Frelimo.

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Author: Jornal Visão Moçambique

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