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UM CONSELHO AMIGO: Para a minha família e amigos (parte 6)

“…era suposto aprendermos com os erros dos outros e não o fizemos, será que conseguiremos aprender com os nossos próprios erros?”

Passam-se 4 meses desde a última vez que vos escrevi, sinto que deveria escrever mais, mas alguns de nós acreditam que não falar do problema, faz o problema desaparecer, e acabam preferindo não ouvir nem ler nada sobre o Covid-19, na esperança de que ele se vá rapidamente embora. A verdade é que o Covid-19 já está connosco há perto de 1 ano, e não mostra sinais de que tão cedo se vá. Aliás, para quem vem acompanhando estes textos, sabe que o cenário mais provável é que tenhamos de aprender a viver com esta nova realidade e de mudar os nossos hábitos e costumes. E sendo este o dia com mais mortes (18) por Covid até então, era mesmo importante deixar-vos algumas palavras.

O Covid-19, como muitos de vós já devem ter percebido, não é apenas um problema sanitário, é também um grande problema psicossocial e económico, não só pelas restrições que nos obriga a adoptar, mas também pelo seu potencial de “gerar caos”, obrigando-nos a decisões que roçam os limites da nossa humanidade (mais sobre isso adiante).

Desde que se reconheceu a possibilidade desta pandemia atingir o nosso país, ficou claro que Moçambique não dispunha de recursos (humanos, materiais e financeiros) para enfrentar esta luta, que aliás deixou de rastos até os países com os melhores Sistemas Públicos de Saúde. E que Conter a Propagação da Epidemia (Localizando e Erradicando dos focos de transmissão) seria a nossa única alternativa. E durante os últimos 9 meses de 2020, essa foi a estratégia por nós adoptada, apostando tudo o que tínhamos na Prevenção.
O problema é que infelizmente “corremos uma maratona com ritmo de sprint”, e isso cansou-nos, e justamente quando estávamos próximo da meta, caímos. Deixamos de exercer distanciamento social, de usar máscaras faciais e de praticar a higiene das mãos. Perdemos o medo, sem que este fosse substituído por conhecimento. A tendência de querer que tudo volte ao normal é própria do Ser Humano, e com as férias do natal e do final do ano, era previsível que tivéssemos um início de ano muito difícil.

Se voltarmos aos textos passados e nos lembrarmos que o objectivo de todas as medidas adoptadas pelo nosso Governo nesta luta desenfreada contra o Covid-19 é de atrasar a disseminação da Doença (reduzindo o índice de transmissibilidade do vírus) como forma de aplanar a sua curva de propagação, impedindo assim, o colapso do Sistema de Saúde (que ocorreria se todos fossemos infectados em simultâneo), poderemos perceber que é inevitável que parte considerável da população se infecte por este vírus e que todos esforços que estão a ser feitos são para impedir que isso aconteça ao mesmo tempo. E que porque não temos “armas” nem “tropa” suficiente para bater com o inimigo de frente, temos de apostar na Estratégia. A estratégia de Comunicação e o papel da Imprensa (que se cumpridos, certamente poderiam ter ajudado a impedir que chegássemos até aqui) foram já amplamente discutidos no quinto capítulo e como forma a não tornar estes textos repetitivos, neste capítulo não voltaremos a mencioná-las.

Para quem vem acompanhando estes textos, há-de certamente lembrar-se que no final do último capítulo mencionei o perigo que representavam os casos importados nesta fase da pandemia, e esse é o motivo pelo qual vos escrevo hoje. Mas antes, permitam-me trazer um pouco de contexto.

O curso de qualquer Epidemia dependerá da constante interacção entre o Agente (neste caso o vírus), o Hospedeiro (neste caso o Homem) e o Ambiente onde os dois primeiros interagem. Esta interacção e a forma diversa como ela está a ocorrer nos diferentes países, é de forma geral, o motivo pelo qual o curso da Epidemia não é igual em todo mundo (mais branda para uns e mais agressiva para outros). E é exactamente por esse motivo que está a começar no mundo, uma campanha massiva de Vacinação contra o Covid-19, num esforço sem precedentes para desequilibrar bruscamente a balança da interacção acima descrita, a favor do Hospedeiro (melhorando a resistência humana, ou concretamente, a imunidade específica contra o Coronavírus).

Desde factores humanos como imunidade cruzada por eventuais infecções prévias por outras estirpes de Coronavírus, à Vacina BCG e o seu eventual efeito protector contra o Covid-19, à factores virais como variações genéticas do Covid-19 (com diferentes padrões de transmissibilidade e virulência), e à factores ambientais como o clima tropical predominante no nosso país, várias foram as hipóteses colocadas para tentar explicar a aparente “inofensibilidade” do vírus no nosso país. E independente de que factores nos teriam favorecido, uma coisa era certa, o nosso sucesso nesta luta dependia de nossa capacidade de manter tais factores constantes (não variáveis).

Se considerarmos que Moçambique tem um clima predominantemente tropical (quase não experimentando invernos) e os factores relacionados ao hospedeiro (embora variem de pessoa para pessoa, como algumas doenças crónicas como a Diabetes e outras que nos podem tornar mais vulneráveis ao Covid) são pelo menos a curto prazo de variabilidade bastante reduzida, perceberemos que a única variável sempre foi o próprio Vírus.
Ou seja, o sucesso da nossa luta dependia, em grande parte da nossa capacidade de manter constantes as características (transmissibilidade e virulência) do “nosso Covid” e isso implicava não deixar entrar no nosso país, variantes ou mutações do Covid-19 que fossem mais agressivas e mais contagiosas do que as que já estavam aqui. Daí a importância de NÃO IMPORTAR MAIS CASOS.

Há, já a algum tempo, na comunidade Científica internacional, relatos de várias Variantes/Mutações do Covid identificadas, uma delas em especial de elevada transmissibilidade e com predilecção para pacientes jovens, em circulação o mais próximo de nós possível (na vizinha República da África do Sul). E não ter fechado as fronteiras com a África do Sul antes das festas pode ter sido até então o PIOR ERRO ESTRATÉGICO por nós cometido. Não vai ser possível vencer esta luta se tivermos de acomodar as necessidades e desejos de todos, em algum momento será necessário sacrificar alguns para o benefício da maioria.

Muitos de vós me têm questionado sobre o impacto da recente acentuada subida no número de novas infecções (mais 858 novos casos só hoje), espelho de uma indisciplina característica nossa na quadra festiva, e esse foi também um dos motivos pelos quais voltei a escrever-vos.

Para dizer-vos em primeiro lugar que não sei como serão os próximos dias, e não sei em parte porque não parei para pensar nisso, não porque o número assustador (e quase a roçar os milhares) de novas infecções que temos tido diariamente nos últimos dias não seja importante, mas porque temos um problema muito, mas muito mais urgente com o qual nos preocupar: o número de leitos hospitalares disponíveis para pacientes com Covid moderado-grave em Maputo está no limite. Não só nas unidades de saúde públicas, mas também nas unidades privadas. E isso é o que nós (Profissionais de Saúde) consideramos como um factor de mau prognóstico. Precisamente por colocar em “xeque” o objectivo principal da nossa estratégia (sim, aquele que faço questão de mencionar em quase todos os capítulos).

Sim, se não reduzirmos o número diário de novos internamentos ou aumentarmos a capacidade de internamento para o Covid-19, corremos o risco de esgotar os leitos disponíveis e de ter de mandar doentes relativamente graves para casa por não ter onde acolhê-los e um desses doentes pode ser você ou eu. O sistema não pode colapsar, daí a urgência em aumentar a nossa capacidade de internamento para pacientes com Covid-19, para que os profissionais de Saúde não sejam, tão cedo, forçados a escolher quem têm maior chance de sobreviver e quem certamente morrerá (como aconteceu na Itália, por exemplo), durante a triagem de doentes nos Centros de Isolamento (estes momentos são tão traumáticos que podem chegar até a fazer o profissional duvidar da sua própria humanidade). E as unidades privadas poderão muito mais cedo ver-se forçadas a mandar embora pessoas com dinheiro ou com Seguro de Saúde, porque apesar poderem pagar, simplesmente não há onde acomodá-los (numa primeira fase, à nossa maneira, vamos nos fazer valer das nossas influências para tentar garantir uma vaga para nós ou para os nossos familiares, mas se nada mudar chegaremos ao dia em que nem as “cunhas” servirão).

Por ora, o Governo anunciou que vai aumentar a capacidade de internamento do CICov (Centro de Isolamento da Polana Caniço) e embora aquele Hospital tenha estruturalmente capacidade para acomodar mais doentes, há uma limitante importante, a capacidade de suplementação de oxigénio. Eu honestamente não sei em que posição do “to do list” está a implantação de um tanque de oxigénio líquido (alguma coisa com pelo menos 15-20 toneladas) naquela unidade sanitária, mas tenho fé que esteja no topo da lista, pois como já havia referido no texto anterior, o grau de “falta de ar” que o Covid provoca não nos permite depender de botijas de oxigénio. As Unidades privadas certamente também vão aos poucos a ampliando a sua capacidade de internamento o que nos concederá mais algum tempo.

É importante e vital que nos antecipemos as adversidades para que não voltemos tão cedo a estar “em xeque”, e isso provavelmente exigirá mais Comunicação (Consciencialização) e eventualmente se isso falhar, mais Restrições.
Se tomarmos em atenção a comunicação a Nação, feita por Sua Excelência Presidente da República em 13 de Janeiro do corrente ano, anunciando uma série de medidas restritivas a vigorar a partir de 15 de Janeiro, era de se esperar que percebido o motivo pelo qual tais medidas se tornaram necessárias, a população se esquivasse de encher as praias no dia 14 como quem estivesse a “aproveitar o último dia de liberdade”, e infelizmente qualquer um que tenha passado da praia da Costa do Sol na tarde de 14 de Janeiro há-de ter verificado aquele cenário lamentável.
As restrições impostas, infelizmente não foram bem percebidas. As pessoas ao invés de perceberem a necessidade de distanciarem-se, entenderam que só não devem manter contacto depois das 13 ou depois das 18 horas, como se o Covid trabalhasse em turnos ou só fosse infeccioso em um determinado período do dia. Estas mesmas pessoas, se não consciencializadas, vão se “apinhar” nos bares até ao novo horário de fecho, e depois sair para casa carregados do vírus para infectar as suas famílias. Se não aprendermos a cumprir integralmente as medidas preventivas, não vai fazer muita diferença a hora de abertura e de encerramento dos locais de lazer.

Teremos de ser mais conscientes, pois parece que se esgotou a nossa Sorte!

Por último:

1 – Se ficar comprovado que a temida variante Sul-Africana está já entre nós (e parece haver alguns indícios de que já esteja), e a crescente vaga de internamentos e mortes estiver a ela relacionada, então medidas mais agressivas como a Cerca Sanitária Provincial (aquela velha estratégia da compartimentalização da ameaça descrita num dos capítulos anteriores) deveriam ser consideradas enquanto possíveis. Protelar tais medidas poderá nos colocar em cenários muito mais dramáticos.

2 – Com a rápida subida do número de novas infecções, haverá por parte de alguns, devido talvez ao desespero, a tendência em pensar que a famosa Vacina (agora vacinas) possa ser a solução mais apropriada para pôr termo a esta catástrofe. Mas não nos precipitemos, há ainda muito por se discutir acerca da “milagrosa” Vacina e é provável que o próximo capítulo (se existir) verse sobre ela.

Até lá, por favor cuidem-se!!!

Paulo Samo Gudo
(Médico Moçambicano)
Para a minha família e amigos (parte 6):

16/01/2021

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