Uma breve abordagem sobre Educação Alimentar IX

Conforme já referido nos capítulos anteriores, a atenção primária à saúde, como internacionalmente definida em Alma-Ata, é a essência de estratégias do sector de saúde para a promoção da nutrição adequada. Por conta disso (e não só), a OMS tem chamado atenção para o facto de que a malnutrição é frequentemente preocupação de muitos, mas a sua solução tem sido responsabilidade de poucos. Assim sendo, os índices da desnutrição continuam, até aos dias actuais, constituindo um dos principais problemas de saúde, sobretudo nos países em via de desenvolvimento, afectando sobremaneira crianças menores de cinco anos de idade, mulheres grávidas e latentes.

Conforme MISAU (2018), a manutenção de um estado nutricional é um direito humano fundamental, sendo também um pré-requisito para o desenvolvimento socioecónomico do país. É visto como um problema de saúde sério, e que aumenta os riscos de desenvolvimento de outras complicações, contribuindo para o aumento da taxa de mortalidade infanto-juvenil.

Em Moçambique cerca de 43% das crianças menores de cinco anos de idade sofrem de desnutrição crónica (caso irreversível que, quando não atendido minuciosa e atempadamente, pode levar à morte, mas em casos mais leves pode levar ao envelhecimento precoce, altura relativamente baixa para a idade, pouco desenvolvimento das faculdades intelectuais, maior susceptibilidade a desenvolver doenças, etc.), e 6% sofrem de desnutrição aguda (em casos mais leves, com notável possibilidade de ser reabilitada) conforme já descrito nos capítulos anteriores.

A conferência internacional sobre cuidados primários de saúde, realizado com o objectivo de procteger e promover a saúde, conforme já descrito nos capítulos IV e V, sublinhou que não existe um sector de desenvolvimento socioecónomico capaz de operar adequadamente por si só, visto que as actividades de um dado sector incidem sobre as metas do outro. Assim, há uma clara, grande e constante necessidade do contacto entre os principais sectores económicos e sociais, a fim de assegurar o desenvolvimento e promover a saúde como uma parte integrante.

O sector da agricultura, por sua vez, pode assegurar não só que produção alimentar para o consume, como também que a disponibilidade do alimento seja real para aqueles que o produzem. Além disso, é possível melhorar o estado nutricional por meio de programas de agricultura e economia doméstica orientados para o atendimento das necessidades prioritárias do país como um todo.

O das obras públicas e habitação para além de adaptar as infra-estruturas sociais às condições climáticas e ambientais locais, também exerce efeito positivo sobre a saúde e, por conta disso, concorre como um sector crucial na garantia da segurança alimentar. É o sector de principal garante de abrigo para animais e depósito de alimentos, protegendo-os contra intempéries, insectos, roedores e, igualmente, prevenindo-os contra o desenvolvimento de fungos e proliferação de doenças que influenciam no crescente índice de insegurança alimentar (pestes e gripe suína, por exemplo). Adicionalmente, as estradas (um outro tipo de empreendimento social que deve ser erguido por esta entidade) não só proporcionam acesso do agricultor ao Mercado, como também facilitam o acesso à localidades mais recônditas, que recebem os suprimentos do sector da saúde.

O processo de ensino e aprendizagem (uma responsabilidade do sector da educação, nesse caso), geralmente traduzida por meio da educação informal, quer usando palestras, seminários, meios de comunicação em massa, etc. ajuda as comunidades a ganhar maior consciência sobre seus problemas de saúde, incluindo a possibilidade de encontrar as respectivas soluções, onde cada uma pode ou não ser opcional em função do custo VS beneficio colectivamente desejado e/ou esperado. Conforme visto no capitulo IV, as prácticas alimentares são determinadas pelas percepções que caracterizam os indivíduos no seu meio social, desde a dificuldade de acesso aos alimentos, a escolha e a forma de preparar, bem como a higiene alimentar e pessoal, incluindo as quantidades ingeridas e a variação ou não dos alimentos consumidos no dia-a-dia de cada um. Além disso, entre as principais causas da prevalência da desnutrição estão: a introdução precoce de outros alimentos para recém-nascido (menos de seis meses); o fraco controlo da saúde da mulher e da criança, o que leva à fraca capacidade de prevenção em diagnóstico precoce do problema; gravidez precoce e, por conseguinte, elevado número de crianças na família, o que engrandece o agregado familiar; hábito das comunidades produzirem mais para a venda do que para a sua própria alimentação; prevalência de tabus alimentares; maior incidência do HIV/SIDA; e a sensibilização deficiente das comunidades sobre os hábitos alimentares.

Os meios de comunicação em massa (sobretudo a imprensa), exercem também um papel crucial na promoção da saúde, na medida em que a divulgação da informação pertinente à saúde e aos respectivos meios para alcançá-la e promovê-la constitui um direito de todos os povos, conforme sustenta a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Os indivíduos e a família (constituintes da comunidade) assumem a responsabilidade pela saúde e pelo bem-estar próprios e da comunidade no seu geral e, nesse contexto, devem desenvolver a capacidade de contribuir no desenvolvimento individual e colectivo. Conforme dito no capítulos anteriores, a educação pode ser definida como um processo continuo e permanente no Homem, através do qual ele adquire experiências, hábitos, valores, saberes e habilidades que lhe tornam apto a agir individual e/ou colectivamente na resolução dos seus problemas. Assim, compete, também, à comunidade manter a aplicação dos cuidados primários da saúde sob constante revisão e certificar-se de que sua actividade realmente corresponde ao propósito estabelecido.

Próximo capitulo: a educação alimentar em questão.

Basílio Macaringue

basiliomacaringue@gmail.com

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