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Moçambique Liga-se ao Agro-Negócio de Portugal

Portugal chegou a Maputo com azeite, queijo, vinho, enchidos e frutos de casca rija para conquistar consumidores. Moçambique respondeu com

Portugal chegou a Maputo com azeite, queijo, vinho, enchidos e frutos de casca rija para conquistar consumidores. Moçambique respondeu com outro desafio: quer receber tecnologia, conhecimento e capital para produzir e transformar localmente.

Num país que, em 2025, gastou mais de mil milhões de dólares na importação de arroz, trigo e óleo alimentar, poderá a cooperação agrícola passar das prateleiras de supermercados para os campos agrícolas e fábricas? A ideia é apresentada como uma oportunidade, mas falta casar os interesses. Empresas portuguesas têm marcado presença em Maputo num esforço para internacionalizar produtos agro-alimentares e conquistar novos consumidores. Para o Governo moçambicano, porém, a cooperação pretendida não deveria terminar na importação e distribuição. O ministro da Agricultura, Ambiente e Pescas, Roberto Albino, quer que Portugal seja fonte de tecnologia, conhecimento e investimento capazes de criar produtores, empresas e indústrias dentro de Moçambique.

Entenda o caso

Arroz e óleo alimentar representam mais de 770 milhões de dólares em importações anuais, revelando um mercado real para novos investimentos.

“Que de Portugal venha o conhecimento, a tecnologia e o investimento”, afirmou o governante num dos encontros entre representantes dos dois países (Fórum Agro-Alimentar Moçambique-Portugal, em Julho), defendendo que o País não se deve limitar a funcionar como mercado para produtos alimentares importados – algo redutor para um território com tanto potencial agrícola como Moçambique.

É nesse confronto entre importar ou produzir que se encontra a questão. O País tem condições para substituir parte dos alimentos que compra no exterior? E poderá utilizar a experiência, o financiamento e as empresas portuguesas para desenvolver uma base agro-industrial orientada não só para o consumo interno, mas também para os mercados regionais da África Austral? A pergunta ganha ainda mais pertinência quando olhamos para a factura alimentar detalhada. Em 2025, Moçambique gastou 359,1 milhões de dólares na importação de arroz, 272,5 milhões em trigo e 411,5 milhões em óleo alimentar. Somados, os três produtos custaram mais de mil milhões de dólares.

O valor mostra que o mercado já existe. Todos os anos, consumidores, comerciantes e indústrias moçambicanas compram grandes quantidades destes produtos. A oportunidade consiste em determinar quanto dessa procura pode ser satisfeita por empresas que produzam, processem e embalem no País, criando riqueza.

Os dados oficiais confirmam a existência de uma ampla base, mas revelam também a distância entre possuir terra e construir uma agricultura competitiva. O Censo Agro-Pecuário 2023/2024 contabilizou cerca de 5,2 milhões de explorações agro-pecuárias e mais de 6,5 milhões de hectares cultivados. A área corresponde a apenas 17,8% da terra considerada arável. Isto significa que a grande maioria (mais de quatro quintos) da terra arável não está cultivada. Mas não significa que toda essa área possa ser imediatamente convertida em produção comercial num simples estalar de dedos. Há que garantir acesso a água, energia, estradas, sementes, mecanização, financiamento, armazenamento e compradores.

A aposta passa por integrar pequenos produtores, processamento, tecnologia e mercados para reter mais valor dentro da economia moçambicana.

A própria estrutura agrária mostra a dimensão do desafio. O Inquérito Agrário Integrado de 2023 identificou cerca de 4,5 milhões de explorações, das quais 98,3% eram pequenas. Apenas 7,7% utilizavam rega e só 9,1% recorriam a fertilizantes químicos.

Jorge Monteiro, embaixador de Portugal em Moçambique, apresenta o empreendimento português do Alqueva como referência. Uma região marcada pela escassez de água foi transformada, através de infra-estruturas de irrigação, num pólo de produção, transformação e exportação. A possível aplicação da experiência portuguesa não estaria, portanto, em reproduzir mecanicamente o Alqueva em Moçambique. Estaria em adaptar conhecimentos sobre gestão de água, irrigação, organização empresarial, investigação, qualidade e comercialização às zonas produtivas nacionais. Moçambique não precisa apenas de mais terra cultivada. Precisa de transformar terra, água e produtores numa cadeia empresarial organizada.

O ministro da Agricultura de Moçambique, Roberto Albino, identifica duas áreas específicas em que empresas portuguesas poderiam investir: produção de arroz e processamento de óleos alimentares. Os dois produtos representaram uma factura de importação conjunta superior a 770 milhões de dólares, em 2025. Trata-se de uma procura suficientemente grande para sustentar investimentos em produção, irrigação, mecanização, processamento e distribuição.

No arroz, a oportunidade começa nas zonas produtoras, mas estende-se muito além da ‘machamba’ (campo de cultivo). Inclui sementes, preparação mecanizada dos solos, regadios, serviços de extensão, secagem, armazenamento, descasque, embalagem e transporte. Uma empresa poderá participar nesta cadeia sem adquirir milhares de hectares. Pode disponibilizar tractores aos pequenos produtores, instalar uma unidade de descasque, financiar a produção através de contratos de compra ou estabelecer uma marca embalada.

A mesma lógica aplica-se ao óleo alimentar. Moçambique já produz soja, girassol, amendoim e gergelim, mas a matéria-prima precisa de ser agregada em quantidades regulares e ligada a unidades de extracção, refinação e embalagem. Neste sector, o investimento pode ainda criar ligações com a produção de rações e a avicultura. O processamento da soja, por exemplo, permite obter óleo e bagaço para alimentação animal. Em vez de uma fábrica isolada, pode desenvolver-se uma cadeia que combine agricultura, indústria alimentar e produção de frango. Ideias não faltam e muitas já foram tentadas ao longo de décadas, mas no ‘ranking’ global do ambiente de negócios, há mercados que continuam a ser mais atractivos do que Moçambique. Maximizar a atracção de investimento continua a ser um dos principais desafios. “Para fazer um contrato, tenho de ter a certeza de que, se houver um problema, há uma resolução justa. Senão, ponho o capital noutro lado”, aponta Paulo Portas, consultor, docente universitário e antigo ministro português. A observação (feita no fórum de Julho) ajuda a explicar por que razão o potencial agrícola moçambicano tarda em converter-se integralmente em investimento. Terra e mercado podem atrair a atenção inicial, mas a decisão final depende do risco.

Paulo Portas introduziu a condição que atravessa todas as oportunidades: estabilidade e segurança jurídica. Uma plantação, um regadio ou uma fábrica de processamento exigem capital de longo prazo. O investidor precisa de saber que poderá utilizar a terra, importar equipamentos, aceder a divisas, contratar trabalhadores, transportar mercadorias e resolver conflitos dentro de regras previsíveis.

A promoção de azeite, queijo, vinho e enchidos portugueses não é incompatível com o desenvolvimento agrícola moçambicano. O ministro Roberto Albino pede que as empresas portuguesas não olhem para o País apenas como destino comercial. Salim Valá, ministro da Planificação e Desenvolvimento, acrescenta: a cooperação deve abranger produção, processamento, exportação e acesso aos mercados. Neste sentido, as empresas portuguesas poderiam participar na agricultura moçambicana em diferentes posições: produção de sementes, irrigação, mecanização, processamento de alimentos, logística, certificação, formação técnica e gestão da qualidade.

O que acontece agora

A produção de azeite e vinho, por exemplo, exige estudos sobre variedades, clima, altitude, solos, água e viabilidade comercial. O desenvolvimento de queijo e enchidos requer uma cadeia pecuária regular, condições sanitárias, refrigeração e capacidade industrial. A questão não deve ser apresentada como uma escolha absoluta entre importar ou produzir. O País precisa de identificar os produtos em que possui vantagens naturais e comerciais, enquanto utiliza o investimento estrangeiro para criar novas capacidades.

Salim Valá defende que a industrialização moçambicana deverá ter na base as cadeias do agro-negócio e incluir as indústrias alimentar, têxtil, de bebidas e da madeira. A mensagem relaciona-se directamente com algumas das principais exportações agrícolas do País. Moçambique já comercializa castanha de caju, frutas, hortícolas, tabaco, gergelim e outras matérias-primas. Contudo, a produção primária não garante que a maior parte do valor fique na economia nacional.

No caju, por exemplo, existe espaço para descasque, selecção, torrefacção, embalagem, produção de derivados e criação de marcas. Nas frutas, o valor pode aumentar através da produção de sumos, polpas, frutas secas e conservas. Na madeira, a alternativa à exportação de toros passa por mobiliário e outros produtos transformados. Neste capítulo, o ministro da Planificação e Desenvolvimento de Moçambique evoca a experiência portuguesa nas regiões de Paços de Ferreira e Paredes, conhecidas pela indústria de mobiliário. O exemplo não se refere apenas à madeira: mostra como uma matéria-prima pode originar pequenas e médias empresas, conhecimento técnico, fornecedores, marcas e exportações.

Essa é a transformação estrutural que falta em muitas cadeias moçambicanas. O País produz, mas nem sempre processa. Exporta, mas nem sempre controla as fases em que se concentram as maiores margens. O objectivo não deve ser apenas produzir mais toneladas, mas reter dentro do País uma parte maior do valor criado por cada tonelada. Ou seja, criar riqueza, contribuir para o tão badalado Produto Interno Bruto, que, em vez de conceito abstracto, se pode tornar em benefícios visíveis.

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Fonte original: diarioeconomico.co.mz

Ângelo Zacarias

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