Categories: Life StyleOpinião

Nunca Pare de Se Aventurar

O que uma vida extraordinária nos ensina sobre encantamento, aventura e o prazer de continuar curioso

Aos sete anos de idade, Guy Van Cleve descobriu que havia dinheiro a ganhar capturando cobras venenosas. A maioria das crianças teria considerado a palavra “venenosas” um argumento bastante convincente contra o empreendimento. Guy, aparentemente, ouviu “oportunidade de negócio”. Talvez essa seja a primeira lição de uma vida dedicada a explorar: curiosidade e bom senso nem sempre chegam à mesma conclusão.

Crescendo na Virgínia, Van Cleve explorava florestas e cavernas com o espírito de Huckleberry Finn e Tom Sawyer, dois aventureiros que sua mãe lhe apresentou por meio dos livros. Capturou cobras, pegou trens de carga, trabalhou na Disneylândia, conheceu o grande nome do tênis Arthur Ashe, apaixonou-se, perdeu esse primeiro amor e desenvolveu um apetite por aqueles momentos extraordinários que mais tarde descreveria como “um raio dentro de uma garrafa”.

Então, tornou-se um clandestino.

Van Cleve embarcou sorrateiramente no SS Canberra, sem passagem, passaporte, bagagem ou qualquer plano além de descobrir para onde o navio estava indo. Para a maioria das pessoas, essa seria a história que contariam pelo resto da vida. Para Guy, foi praticamente apenas o ato de abertura.

Seu primeiro livro de memórias, Roam Wasn’t Built in a Day: The Adventures of Guy Van Cleve, Volume I, registra a extraordinária liberdade de sua juventude e a curiosidade que o impulsionou de uma aventura à outra. O segundo volume acompanha o mesmo homem na passagem para a vida adulta, quando a geografia muda, mas o instinto permanece. Juntos, os livros apresentam uma pergunta que vai muito além da vida extraordinariamente aventureira de um único homem.

O que acontece se nunca pararmos de explorar?

Não se trata simplesmente de viajar. Trata-se de explorar. De se recusar a acreditar que você já viu o melhor que a vida tem a oferecer.

Uma das imagens mais reveladoras da história de Van Cleve é também uma das mais engraçadas. Quando embarcou clandestinamente no Canberra, não levou bagagem alguma. O capitão considerou isso tão improvável que ficou convencido de que uma mala contendo o passaporte e os pertences de Guy deveria estar em algum lugar a bordo.

Não estava.

Ao final da viagem, entretanto, os membros da tripulação haviam acolhido o jovem clandestino. Na última noite, presentearam-no com a bandeira do navio. Então surgiu uma questão prática: como um jovem que havia chegado carregando absolutamente nada conseguiria partir levando uma bandeira e todos os presentes que havia acumulado?

A tripulação encontrou para ele uma velha mala azul-clara, desgastada pelo tempo e coberta de adesivos de destinos ao redor do mundo.

Ele embarcou de mãos vazias.
Partiu carregando histórias.

Talvez não exista metáfora melhor para uma vida dedicada à aventura. Van Cleve continuou colecionando histórias.

Aos dez anos, enquanto participava de uma clínica de tênis em Richmond, conheceu Arthur Ashe.

O que permaneceu com ele não foi simplesmente o encontro com uma futura lenda, mas a generosidade de Ashe com aquele menino. Anos mais tarde, Guy aprenderia com outro ícone do tênis, Pancho Gonzales, cujo nome aparecia na primeira raquete realmente séria de Guy.

Seus pais haviam se conhecido por causa do tênis. Sua mãe derrotou seu pai de maneira tão decisiva que o jovem, ferido em seu orgulho, treinou durante duas semanas, exigiu uma revanche, venceu e, em seguida, apaixonou-se por ela.

Guy herdou tanto o jogo quanto o espírito competitivo.

Também desenvolveu uma forma incomum de educação. Coloque-o em uma sala de aula que considerasse entediante, e sua mente poderia começar a vagar. Coloque-o ao lado de alguém que tivesse dominado um ofício, atravessado um oceano, construído um negócio ou vivido uma vida extraordinária, e ele se transformava em um aluno atento.

Esse instinto ganha força em seu segundo livro de memórias.

É meados da década de 1970, e a própria América parece estar explorando um caminho em direção a algo novo. A Guerra do Vietnã terminou. Watergate abalou a confiança nas instituições. Hollywood ainda preservava seu glamour grandioso. O rock ajudava a definir uma geração, enquanto a disco music aguardava logo adiante.

Guy consegue atravessar uma quantidade impressionante de tudo isso.

Há aventuras em Hollywood, estúdios de televisão e programas de auditório. De volta a Atlanta, ele conhece Roger Daltrey, do The Who, enquanto Daltrey lançava seu primeiro álbum solo.

Existe apenas uma pequena complicação: Guy deveria estar em casa, doente, afastado do trabalho.

Quando mais tarde conta ao chefe como havia passado seu dia de licença médica, a reação do homem é, essencialmente, que, se Guy pretendia matar o expediente para almoçar com Roger Daltrey, pelo menos deveria tê-lo convidado.

Esse é o tipo de vida adulta no universo de Guy Van Cleve.

Então, o lendário produtor Bill Graham fecha o Fillmore East. Os amantes da música lamentam.

Guy tem outra ideia.

Por que não construir outro?

Ele e seus amigos imaginam o Alcázar, uma ambiciosa casa de shows de rock na Virgínia que acreditavam ser capaz de capturar parte da magia do Fillmore. Guy escreve um plano de negócios. Seus amigos deixam os empregos. Eles formam a Rock and Roll Inc. e se estabelecem em uma casa de família às margens do rio James, onde a distinção entre sede corporativa e uma festa de rock and roll de dez meses se torna maravilhosamente difícil de identificar.

Grandes caixas de som espalham música pelo rio. Convidados chegam e vão embora. Motociclistas se juntam às festividades. Guy circula entre as pessoas procurando alguém que pudesse investir.

Sua busca pelo Alcázar acaba levando-o das margens do rio a reuniões com empresários ricos, herdeiros de fundos familiares e potenciais investidores. Por meio de uma conexão, ele chega até um associado de Bill Graham e aparece em uma propriedade extraordinária carregando seu plano de negócios em uma elegante pasta.

Ali, Guy descobre que, por trás das luzes, das guitarras e da mitologia do rock and roll, existem contratos, garantias, seguros, responsabilidades, financiamento e riscos.

A paixão pode criar um sonho.
Mas não necessariamente pode financiá-lo.

O Alcázar nunca abre.

E esse aparente fracasso conduz talvez à mais estranha reviravolta de qualquer um dos dois livros.

Guy Van Cleve apaixona-se pelo direito tributário.

O garoto que pegava trens de carga e embarcava clandestinamente em transatlânticos começa a estudar regulamentações tributárias federais com a mesma intensidade que antes dedicava à música e às viagens.

Mas talvez ele não tenha mudado.

Ele continua explorando.
Apenas encontrou uma nova paisagem.

À medida que as estruturas de investimento norte-americanas se tornam cada vez mais sofisticadas durante a década de 1970, Guy passa a se fascinar pelos mecanismos que existem por trás delas. Ele reconhece a importância das mudanças nas regras federais de tributação relacionadas ao risco e leva esse conhecimento de volta ao seu empregador em Atlanta.

Aos apenas 24 anos, de repente, passa a carregar cerca de US$ 50 milhões em responsabilidades.

Então a Coopers & Lybrand entra em cena.

Existe outra complicação: Guy ainda não havia concluído sua graduação em contabilidade. A empresa percebe potencial suficiente para criar um estágio integral incomum, permitindo que ele trabalhe profissionalmente enquanto termina os estudos.

O estudante inquieto retorna à universidade.

Tira nota máxima em todas as disciplinas.

O garoto não havia se transformado repentinamente em outra pessoa.

A curiosidade apenas mudou de assunto

Essa talvez seja a conexão mais importante entre as duas memórias de Van Cleve.

Suas aventuras são extraordinariamente divertidas, mas, por baixo delas, existe uma lição surpreendentemente universal sobre permanecer interessado pela vida.

As cobras ensinaram-no a olhar para onde os outros recuavam.

Os trens ensinaram-no a embarcar sem saber o destino.

O Canberra ensinou-lhe o poder dos desconhecidos, enquanto Arthur Ashe e Pancho Gonzales ensinaram o valor de aprender com pessoas extraordinárias.

O Alcázar ensinou-lhe que uma visão precisa de estrutura — e que um fracasso pode abrir portas que sequer sabíamos que existiam.

A casa noturna nunca abriu.

O empreendedor, sim.

A grande tentação de envelhecer é acreditar que a curiosidade pertence à juventude.

A vida de Van Cleve sugere exatamente o contrário.

O encantamento não tem prazo de validade.
A aventura não tem limite de idade.
E a curiosidade pode ser uma das formas mais poderosas de permanecer verdadeiramente vivo.

O restante de nós não precisa capturar cobras venenosas, pegar trens de carga, embarcar clandestinamente em transatlânticos ou construir o próximo espetacular Fillmore East.

Explorar pode significar entrar em uma sala onde não conhecemos ninguém, conversar com um desconhecido, aprender algo inesperado ou pegar a estrada pela qual já passamos cem vezes.

Claudia Cataldi é jornalista, autora e correspondente internacional, com mais de 30 anos de experiência nos setores de mídia, governo e educação. Fellow das Nações Unidas e correspondente multilíngue com atuação em sete países, possui formação avançada em ciência política, relações internacionais e marketing e é doutoranda em Comunicação Estratégica. Seu trabalho é movido por uma curiosidade permanente sobre pessoas, culturas e as histórias que nos conectam.

Author: CLAUDIA CATALDI

Claudia Cataldi é Mestre em Ciência Política e Relações Internacionais, Jornalista, Publicitária e Tecnóloga em Processamento de Dados. Tem MBA em Políticas Públicas e Governo pelo IUPERJ- Instituto Universitário de Pesquisas do Estado do Rio de Janeiro, e PÓS-MBA em Marketing pelo COPPEAD/ UFRJ. Foi bolsista pela ONU, em Israel, em Desenvolvimento Local pela Universidade de Jerusalém. Experiente nas três esferas de governo, já foi Secretária Municipal de Comunicação, Ouvidora do Estado do Rio, e do Board da Casa da Moeda do Brasil, órgão do Governo Federal. Fluente em Inglês, Espanhol e Italiano. Autora de várias obras, é Imortal da Academia Fluminense de Letras no Estado do Rio; da Academia de Ciências, Letras e Artes de São Paulo; da Academia de Letras do Brasil em Minas Gerais; da Academia Internacional de Literatura Brasileira em Nova Iorque – EUA, e da Academia Luso Brasileira de Letras em Portugal. É Doutora Honoris Causa em Literatura pela Federação Brasileira dos Acadêmicos das Ciências, Letras e Artes. É a voz oficial do Reveillon do Rio tendo apresentado-o por oito edições consecutivas. Presentemente, apresenta os programa Alerj Entrevista e Alerj Debate ambos da Tv ALERJ - a tv da Assembleia Legislativa do Estado do Rio...

CLAUDIA CATALDI

Claudia Cataldi é Mestre em Ciência Política e Relações Internacionais, Jornalista, Publicitária e Tecnóloga em Processamento de Dados. Tem MBA em Políticas Públicas e Governo pelo IUPERJ- Instituto Universitário de Pesquisas do Estado do Rio de Janeiro, e PÓS-MBA em Marketing pelo COPPEAD/ UFRJ. Foi bolsista pela ONU, em Israel, em Desenvolvimento Local pela Universidade de Jerusalém. Experiente nas três esferas de governo, já foi Secretária Municipal de Comunicação, Ouvidora do Estado do Rio, e do Board da Casa da Moeda do Brasil, órgão do Governo Federal. Fluente em Inglês, Espanhol e Italiano. Autora de várias obras, é Imortal da Academia Fluminense de Letras no Estado do Rio; da Academia de Ciências, Letras e Artes de São Paulo; da Academia de Letras do Brasil em Minas Gerais; da Academia Internacional de Literatura Brasileira em Nova Iorque – EUA, e da Academia Luso Brasileira de Letras em Portugal. É Doutora Honoris Causa em Literatura pela Federação Brasileira dos Acadêmicos das Ciências, Letras e Artes. É a voz oficial do Reveillon do Rio tendo apresentado-o por oito edições consecutivas. Presentemente, apresenta os programa Alerj Entrevista e Alerj Debate ambos da Tv ALERJ - a tv da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro e é professora na ELERJ, a Escola do Poder Legislativo do Estado do Rio de Janeiro, onde ministra classes para Deputados e Vereadores. Escreve para o Jornal Brazilian Times em Nova Iorque. É Coordenadora do Comitê de Governança no Poder Legislativo e Diretora de Comunicação e Marketing da Rede Governança Brasil, a convite do Ministro do Tribunal de Contas da União, Augusto Nardes. Mas o título que mais lhe agrada é o de mãe do Claus, 17 e do Luca, 16.

Recent Posts

Deputada brasileira Giselle Monteiro cria programa para ampliar prevenção à hipertensão em estabelecimentos de grande circulação no Rio

Projeto de autoria da parlamentar foi aprovado em segunda discussão na Alerj e prevê ações…

2 dias ago

Nacala poderá elevar cobertura de água para 60% até Outubro

A cobertura de abastecimento de água na cidade de Nacala poderá aumentar dos actuais 35–38%…

4 dias ago

O Brasil está sobre duas rodas e a conta começa a chegar

Existe uma transformação silenciosa acontecendo nas ruas brasileiras. Ela passa entre os carros, ocupa os…

4 dias ago

Jornal Visão Moçambique lança a edição 291 com destaque para os grandes desafios políticos, económicos e sociais do país

Já está disponível a edição 291 do Jornal Visão Moçambique, que chega às bancas nesta…

1 semana ago

Vilankulo acolhe cimeira africana de golfe

Por: Dávio David A capital do turismo nacional, cidade de Vilankulo, na província de Inhambane,…

1 semana ago

Tom Markert e o Universo Sombrio dos Cyber Thrillers

Tom Markert passou sua carreira estudando sistemas que a maioria das pessoas nunca percebe —…

2 semanas ago

This website uses cookies.