“O QUINTO SARGENTO QUE DEVERIA SER OFICIAL”

📖 CAPÍTULO II – O Sangue Não Mente

Quando o quinto entrou no exército, tinha 19 anos e um papel na mão que não usou.

Era uma carta do administrador do posto administrativo de Chiúre. Escrita à mão, com letra trêmula:

> _“Ao Comando Provincial. Venho por este meio recomendar o jovem, filho do Capitão Mussa, tombado em combate em 76 em defesa da pátria. Ele foi capitão graças a homens patriotas e leais daquela época, como Samora Machel, Pascoal Mocumbi, Filipe Samuel Magaia e tantos outros. Esses reconheciam homens de guerra pelo valor, não pelo status da família. O rapaz é sério e trabalhador. Se possível, encaminhar para serviço administrativo na sede, para honrar a memória do pai.”_


Ele dobrou a carta, guardou no bolso, e foi para o pelotão de recrutas.

> — _Escritório é para quem tem medo de lama, meu velho_ — disse para o sargento de recrutamento, devolvendo a carta. 

> — _Eu vim sujar a bota._


O pai dele, Capitão Mussa, tinha caído numa emboscada na *Zona Sul* quando o Quinto tinha 12 anos. Voltou num saco plástico e numa caixa de madeira menor, com a farda rasgada e a chapa de identificação.

Naquele funeral, o miúdo não chorou. Ficou de pé, com a boina velha do pai na mão, e disse para a mãe:

> _Quando eu crescer, vou entrar lá dentro. Não para vingar. Para que outros pais não voltem assim._


Cresceu dividindo o pouco que tinha. Na escola, dava metade do pão aos colegas que vinham de longe a pé. Quando viu um velho cair na rua com um saco de carvão, carregou o saco até a casa dele sem perguntar o nome.

Os mais velhos diziam: 
_“Esse miúdo não é normal. Parece que tem alguém a guiar a mão dele.”_

Na tropa, essa fama não morreu. 
O quinto não aceitava suborno para furar fila de farda. Não escolhia quem ia para patrulha com base em quem lhe dava uma garrafa de whisky.

> — _Fome não tem patente_ — dizia. 

> — _Medo também não._


E foi por isso que os tenentes de mesa o chamavam de “revolucionário” 
Porque ele lembrava que o exército era do povo, não o contrário.

Ângelo Zacarias Manhengue

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