Há 37 anos, em plena Maputo, o Centro de Formação Agrária e Desenvolvimento Rural – CFA, em parceria com a SEMOC, imprimiu um calendário simples. Título: “Horta o ano inteiro”. Calendário 1988. Papel gasto, letras castanhas, linhas que cruzam meses de Janeiro a Dezembro. Não era tese de universidade. Era sobrevivência escrita para o povo.
Abóbora planta-se de Março a Junho, colhe-se até Novembro. Alface vai à terra em Abril, Maio e Agosto. Tomate não dorme: sementeira de Janeiro a Dezembro, colheita quase o ano todo. Piri-piri, cebola, couve, cenoura… cada um com o seu tempo, mas nenhum com a desculpa de “não é época”.
Esse papel prova uma coisa incômoda: já sabíamos como vencer a fome antes da internet, antes dos fertilizantes importados, antes da crise do dólar. O conhecimento estava na mão do camponês, da dona de casa, do miúdo que regava o canteiro depois da escola. Era horta o ano inteiro, não horta quando dá.
Uma família, uma horta: o princípio esquecido
O lema “Uma família, uma horta” não é slogan novo. É arquitetura social. Um quintal de 3×4 metros alimenta 4 pessoas com vitaminas diárias. Custa menos que 2 maços de couve no mercado. Ensina a criança que comida não nasce no supermercado. Cria resiliência quando o preço do tomate dispara.
Mas abandonámos o princípio. Troámos a enxada pelo WhatsApp e o canteiro pelo cimento. Resultado: importamos alface do Zimbabwe e piri-piri da África do Sul, enquanto o nosso quintal cria capim.
Agricultura vertical: o 1988 com elevador
Hoje o Presidente Daniel Chapo traz de volta essa visão, mas com linguagem do século 21: agricultura vertical sustentável. Não é capricho de campanha. É pragmatismo.
Chapo é visionário porque entende que terra já não sobra nas cidades. Mas é pragmático porque sabe que tecnologia sem base popular vira museu. A agricultura vertical – plantar em prateleiras, paredes, telhados, com menos água e mais produção, é a caderneta de 1988 elevada 10 andares.
Progressista porque não exclui ninguém. O camponês de Boane continua com o seu machamba. A família da Polana continua com o seu canteiro. E o jovem do bairro, sem quintal, planta alface num tubo de PVC na varanda. Todos produzem. Todos comem.
A sustentabilidade está aí: menos água por gotejamento, menos pesticida por controlo biológico, menos transporte porque a horta está ao lado da cozinha. É 1988 com ciência. É tradição com inovação.
A lição do papel amarelo
Olho para esse calendário e vejo 3 verdades:
Conhecimento não envelhece: Saber que couve de folhas se semeia em Março-Abril e Junho-Julho continua válido. O clima muda, a lógica não.
Autonomia começa no quintal: País que não produz o que come, negocia com a barriga vazia. Soberania alimentar começa com 1 metro quadrado de terra solta.
Liderança é ligar os pontos: Chapo não inventou a horta. Ele conectou a caderneta de 1988 com a tecnologia de 2026. Isso é visão pragmática: respeitar o que deu certo e melhorar o que ficou para trás.
O desafio para nós
Se o CFA fez isso em 1988 com máquina de stencil, o que nos impede hoje com telemóveis, internet e estufas caseiras?
O Presidente abriu a porta da agricultura vertical. Mas a porta só faz sentido se cada família atravessar. Planta piri-piri no balde. Alface na garrafa PET. Tomate no saco de 50kg. Começa pequeno, mas começa.
Porque no fim, não é o governo que vai pôr couve no teu prato todas as noites. É o teu quintal. É a tua horta. É a tua decisão.
1988 já nos deu o mapa. 2026 nos dá ferramentas. Falta só a coragem de sujar as mãos.
Por: Lino Eustáquio
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