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Severino Ngoenha aponta falhas estruturais na política moçambicana e defende prestação de contas ao povo

Numa análise contundente partilhada nas redes sociais, o filósofo Severino Ngoenha escancara a desconexão entre o poder político e os cidadãos, questionando o silêncio dos parlamentares perante as crises locais que vão de Cabo Delgado a Maputo.

Há um erro de origem na arquitectura política de Moçambique que dita, por si só, o fracasso da governação em atender às aspirações reais dos cidadãos. Para o filósofo e investigador Severino Ngoenha, o problema central reside numa inversão perversa de lealdades: os políticos em Moçambique devem obediência cega aos seus partidos e não às populações que os colocaram nos cargos.

Numa reflexão difundida recentemente na plataforma Facebook, Ngoenha apontou o dedo a um sistema que carece do elemento mais básico da democracia — a responsabilização. Ao estarem amarrados às estruturas partidárias, os deputados e representantes públicos transformam-se em correias de transmissão de interesses fechados, abdicando do dever elementar de prestar contas ao povo da sua província, distrito ou município.

Entenda o caso

Para fundamentar a tese, o académico fez uma viagem inclemente pelo território nacional, confrontando o leitor com as perguntas que os representantes locais evitam responder: O que diria o deputado de Cabo Delgado aos eleitores sobre o impacto da guerra e a exploração de recursos? O que justificaria o representante de Tete face às marcas deixadas por megaprojectos e empresas estrangeiras? Como explicaria o parlamentar de Nampula contratos em que 99% da riqueza gerada em zonas como Kenmare escapa ao país e às populações locais que apenas colhem os desastres e a miséria?

A rota das assimetrias e do abandono político estende-se a Manica, onde o ouro reluz nos mercados internacionais enquanto os rios são poluídos e falta água potável e barragens às comunidades; passa por Gaza e Inhambane, onde a exploração de gás (como em Panda) e as areias pesadas de Chibuto correm em paralelo com a invisibilidade de melhorias reais na vida dos munícipes; e termina na própria capital, Maputo, onde os buracos e o caos urbano persistem há meses sem que nenhum governante se dê ao luxo de prestar esclarecimentos prévios ou justificar as falhas aos cidadãos confrontados diariamente com o imobilismo institucional.

A mensagem de Severino Ngoenha funciona, assim, como um espelho desconfortável para a classe política: enquanto o mandato for um favor prestado ao partido e não um compromisso intransigente com o povo, a soberania popular continuará a ser uma miragem e o poder, um exercício solitário de costas viradas para a realidade do país.

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Fonte original: MZNews

Ângelo Zacarias

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Ângelo Zacarias

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