XENOFOBIA NA ÁFRICA DO SUL FORÇA REPATRIAMENTO DE CENTENAS DE MOÇAMBICANOS E DEIXA SETE MORTOS

Ataques em Mossel Bay expõem vulnerabilidade de trabalhadores migrantes; Governo moçambicano mobiliza assistência e inicia operação de repatriamento

Mais de 800 cidadãos moçambicanos residentes na República da África do Sul foram afectados por uma nova vaga de violência xenófoba registada na cidade de Mossel Bay, província do Cabo Ocidental, numa ocorrência que resultou na morte de sete compatriotas e desencadeou uma operação de emergência para o repatriamento de centenas de famílias.
As informações disponíveis indicam que os incidentes ocorreram na sexta-feira, 29 de Maio, quando grupos hostis dirigiram acções de intimidação e violência contra comunidades estrangeiras estabelecidas naquela região sul-africana. Entre as vítimas mortais contam-se cinco cidadãos moçambicanos que perderam a vida directamente em consequência dos ataques xenófobos.
Outros dois moçambicanos morreram num acidente de viação enquanto regressavam ao país em transporte particular, numa tentativa de abandonar rapidamente a zona afectada pelos confrontos e ameaças.
A situação obrigou as autoridades moçambicanas a activar mecanismos de assistência consular e humanitária para apoiar os nacionais afectados.
Consulado acompanha crise e coordena assistência
Desde o início dos incidentes, o Consulado de Moçambique na Cidade do Cabo tem acompanhado a evolução da situação no terreno, prestando assistência aos cidadãos afectados e coordenando esforços com as autoridades locais para garantir a sua segurança.
Segundo informações oficiais, cerca de 300 moçambicanos regressaram ao país pelos seus próprios meios no sábado, 30 de Maio. Entretanto, mais de 500 pessoas permaneceram temporariamente alojadas num local considerado seguro na província do Cabo Ocidental, enquanto eram preparados os procedimentos para o seu regresso organizado a Moçambique.
“O Governo está a monitorar atentamente a situação e a garantir assistência aos cidadãos nacionais afectados, através das suas representações consulares e instituições competentes”, refere uma comunicação oficial das autoridades moçambicanas.
Operação de repatriamento em curso
O processo formal de repatriamento dos cidadãos remanescentes iniciou-se a 1 de Junho, envolvendo a coordenação entre diferentes entidades governamentais para assegurar o transporte seguro dos afectados até às suas zonas de residência.
Os repatriados serão encaminhados para as respectivas comunidades de origem, localizadas principalmente nas províncias de Gaza, Inhambane, Maputo, Cidade de Maputo e Manica.
À chegada ao posto fronteiriço de Ressano Garcia, os cidadãos em retorno recebem apoio humanitário imediato, incluindo dois kits alimentares por agregado ou indivíduo beneficiário.
“Um dos kits destina-se ao consumo imediato, enquanto o segundo visa garantir apoio alimentar durante os primeiros dez dias de reintegração nas comunidades de origem”, explicam fontes governamentais ligadas à operação.
Cresce tensão anti-imigrante
As autoridades alertam para a possibilidade de agravamento da situação nas próximas semanas. O receio está associado à crescente mobilização de grupos anti-imigrantes na África do Sul, alguns dos quais têm vindo a exigir a saída de determinados grupos de estrangeiros até ao dia 30 de Junho.
Analistas consideram que este tipo de discurso tem contribuído para aumentar o ambiente de insegurança entre comunidades migrantes, particularmente trabalhadores provenientes de países vizinhos da África do Sul.
A volatilidade do cenário levou o Governo moçambicano a desenvolver medidas de mitigação destinadas a responder a eventuais novos fluxos de cidadãos forçados a regressar ao país.
Instituições mobilizadas
O acompanhamento da situação está a ser realizado através das missões diplomáticas e consulares de Moçambique na África do Sul, em coordenação com o Instituto Nacional para as Comunidades Moçambicanas no Exterior (INACE) e o Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD).
Estas instituições estão encarregues de monitorar a evolução dos acontecimentos, prestar assistência aos afectados e coordenar acções de acolhimento e reintegração dos cidadãos que regressam ao território nacional.
“O Governo continuará a fazer o seguimento apropriado da situação, garantindo assistência aos cidadãos moçambicanos e reforçando os mecanismos de protecção das comunidades nacionais no exterior”, sublinha a nota oficial.
Um desafio recorrente
Os mais recentes incidentes reacendem preocupações sobre a segurança dos trabalhadores migrantes moçambicanos na África do Sul, país que acolhe uma das maiores comunidades de cidadãos moçambicanos no estrangeiro.
Organizações de defesa dos direitos humanos têm alertado, ao longo dos anos, para a recorrência de episódios de xenofobia naquele país, frequentemente associados a tensões económicas, desemprego e sentimentos anti-imigração.
Enquanto decorrem os esforços de repatriamento e assistência, centenas de famílias afectadas enfrentam agora o desafio de reconstruir as suas vidas após perderem bens, empregos e meios de subsistência em consequência dos ataques.
As autoridades moçambicanas asseguram que continuarão a acompanhar a situação e a adoptar medidas necessárias para proteger os interesses dos cidadãos nacionais afectados pela crise.

Ângelo Zacarias

Recent Posts

Mitra Energy na APPEC 2026: Relevância da África para fornecimento de energia na Ásia

O continente africano se prepara para se tornar na próxima fronteira de fornecimento energético. (mais…)

19 horas ago

Condenar VM7 pode reacender à violência

Por: Dávio David Os académicos João Feijó e Rita Chiúre defendem um julgamento imparcial do…

2 dias ago

Herdeiro de Joana Simeão representa Renamo na França

Por: Dávio David O filho da revolucionária moçambicana, Joana Simeão, Malcolm Tshilengue, tomou posse na…

2 dias ago

REUNIÃO NA MATOLA: PRESIDENTE CHAPO REFORÇA COMPROMISSO COM PROJECTOS DE FINANCIAMENTO PARA MULHERES

O Presidente da República, Daniel Chapo, falava hoje, 18 de Setembro de 2026, na Cidade…

3 dias ago

CONFLITO POLÍTICO EM NAMPULA: CUMBANE CONTESTA PAÚNDE

O académico e analista político Julião Cumbane contesta a posição assumida por Filipe Paúnde, membro…

3 dias ago

Graça Machel exige intolerância zero e emergência nacional contra o feminicídio em Moçambique

Perante uma plateia repleta de activistas e lideranças sociais, a activista dos direitos humanos e…

4 dias ago

This website uses cookies.