Burlas a partir da prisão expõem falhas graves: SERNIC intervém na Cadeia de Máxima Segurança da “BO”

Numa operação que levanta mais perguntas do que respostas, o Serviço Nacional de Investigação Criminal (SERNIC) invadiu recentemente a Cadeia de Máxima Segurança, conhecida como “BO”, na província de Maputo, com o objetivo de apreender telemóveis usados por reclusos em esquemas de burla.
A intervenção surge após uma onda de indignação pública, marcada por denúncias recorrentes de cidadãos vítimas de extorsão e fraude protagonizadas a partir do interior do sistema prisional — um espaço que, em teoria, deveria ser de controlo absoluto do Estado.
Apesar do caráter “excecional” da operação, fontes indicam que o uso de telemóveis por reclusos não é um fenómeno novo, mas sim uma prática antiga e, alegadamente, facilitada por falhas sistemáticas de controlo e possíveis esquemas de corrupção dentro das cadeias.
“Não se trata apenas de apreender telefones. A questão central é: como é que estes dispositivos entram e circulam livremente numa cadeia de máxima segurança?”, questiona um analista de segurança ouvido no âmbito desta investigação.
Relatos apontam que alguns reclusos operam verdadeiras redes criminosas a partir das celas, contactando vítimas aleatórias, simulando emergências familiares ou falsas oportunidades de negócio para obter transferências financeiras. Em muitos casos, as vítimas só percebem o esquema depois de efetuarem pagamentos, sem possibilidade de reaver os valores.
A operação do SERNIC, embora apresentada como uma resposta firme, é vista por críticos como uma medida reativa, que não ataca as causas profundas do problema. Organizações da sociedade civil defendem que a recorrência destas situações revela fragilidades estruturais no sistema penitenciário, incluindo falta de fiscalização rigorosa, insuficiência de meios tecnológicos e, possivelmente, conivência interna.
“O Estado está a correr atrás do prejuízo. Estas redes já operam há muito tempo”, afirmou uma fonte ligada ao setor da justiça, acrescentando que sem reformas profundas, as operações pontuais terão impacto limitado.
Entretanto, o silêncio das autoridades sobre eventuais responsabilidades internas alimenta suspeitas e reforça a perceção pública de impunidade. Para muitos cidadãos, a questão já não é apenas a existência de burlas, mas sim a aparente incapacidade — ou falta de vontade — das instituições em erradicá-las.
A intervenção na “BO” poderá resultar na apreensão de dispositivos e na interrupção temporária de algumas atividades ilícitas. No entanto, permanece a dúvida: será esta mais uma operação simbólica ou o início de uma mudança real no controlo do crime dentro das prisões moçambicanas?

Ângelo Zacarias Manhengue

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