CHAPO APONTA INDEPENDÊNCIA ECONÓMICA COMO GRANDE DESAFIO PARA OS PRÓXIMOS 50 ANOS
JORNAL VISÃO MOÇAMBIQUE
Edição Especial – Política & Desenvolvimento
Enviado Especial: Ângelo Manhengue
Local: Chimoio, Província de Manica
Data: Sexta-feira, 21 de Agosto de 2026
Teve início, na manhã desta sexta-feira, 21 de Agosto de 2026, na cidade de Chimoio, a 11.ª Conferência Nacional de Quadros da Frelimo, encontro que decorre durante três dias, até 23 de Agosto.
A conferência reúne delegados, convidados nacionais, representantes de organizações sociais e membros de partidos estrangeiros, num momento que a liderança da Frelimo apresenta como importante para a definição das prioridades políticas e económicas do país.
No discurso de abertura, o Presidente da Frelimo, Daniel Francisco Chapo, colocou a conquista da independência económica no centro da agenda para os próximos 50 anos, defendendo uma maior capacidade nacional de produção, transformação dos recursos naturais e redução da dependência externa.
No seu pronunciamento inaugural, Daniel Chapo afirmou que a nova etapa de desenvolvimento económico não deve representar uma ruptura com os valores que estiveram na origem da luta de libertação nacional e da conquista da independência política, proclamada a 25 de Junho de 1975.
Ao fazer um balanço dos primeiros 50 anos de independência, o Presidente da Frelimo destacou conquistas alcançadas em áreas como educação, saúde, energia eléctrica e abastecimento de água.
Segundo Chapo, no período da independência mais de 90 por cento da população moçambicana era analfabeta. Desde então, afirmou, o país registou uma expansão do acesso à educação, incluindo ao ensino técnico e superior, bem como a expansão dos serviços básicos para os distritos.
Na área da saúde, destacou a expansão dos serviços e do programa nacional de vacinação.
O percurso, contudo, não foi linear. Chapo reconheceu os efeitos da guerra de desestabilização, que se prolongou por 16 anos, bem como o impacto dos desastres naturais, do terrorismo em Cabo Delgado, do crime organizado, dos raptos, do tráfico de drogas e da corrupção.
Para Daniel Chapo, a principal tarefa dos próximos 50 anos será transformar a independência política alcançada em 1975 numa maior autonomia económica.
“Se os primeiros 50 anos foram marcados pela conquista da independência política, os próximos 50 anos devem ser orientados para a conquista da independência económica”, defendeu.
O Presidente da Frelimo classificou esta transformação como “o grande desafio geracional do nosso tempo”, apelando à participação de diferentes sectores da sociedade.
Trabalhadores, jovens, mulheres, funcionários públicos, camponeses, operários e empresários foram apontados como parte da força necessária para concretizar esta agenda.
Chapo esclareceu que a independência económica não significa isolamento internacional nem rejeição do investimento estrangeiro ou da cooperação internacional.
A estratégia, segundo explicou, passa por construir uma economia mais diversificada, aumentar a capacidade de exportação, reduzir a dependência de importações e diminuir progressivamente a dependência da ajuda externa.
A modernização da agricultura foi apresentada como uma das bases da transformação económica.
O objectivo defendido é aumentar a produção nacional, reforçar a soberania alimentar e criar condições para a expansão das exportações agrícolas.
A industrialização constitui outro dos pilares da estratégia.
Chapo defendeu que os recursos naturais devem ser processados dentro do país sempre que existam condições para tal, permitindo aumentar o valor acrescentado gerado internamente, criar empregos e ampliar os benefícios para as famílias e para o Estado.
A juventude e as mulheres foram apontadas como grupos que devem beneficiar da expansão das oportunidades económicas resultantes deste processo.
O potencial energético de Moçambique também foi colocado em destaque.
Segundo Chapo, a capacidade nacional de produção de energia eléctrica deve ser utilizada para acelerar a industrialização e, simultaneamente, reforçar o papel de Moçambique como fornecedor de energia na região da África Austral.
Para concretizar a transformação económica, Daniel Chapo defendeu reformas estruturais no funcionamento do Estado.
A Administração Pública, segundo o Presidente da Frelimo, deve tornar-se mais eficiente, moderna, transparente e digitalizada, com maior capacidade de resposta às necessidades dos cidadãos.
O combate à corrupção foi igualmente apresentado como uma condição para melhorar o funcionamento das instituições e reforçar a confiança pública.
No sector dos recursos naturais, Chapo destacou a revisão da legislação de minas e petróleos, apontando para a participação gratuita e não diluível de pelo menos 15 por cento do Estado moçambicano em empreendimentos de recursos naturais.
A medida, segundo a explicação apresentada, pretende assegurar uma maior participação do Estado nos benefícios económicos dos projectos à medida que estes avançam e amadurecem.
A valorização local dos recursos foi apresentada como uma das formas de garantir que a exploração das riquezas naturais produza maiores benefícios económicos para Moçambique.
A situação política e social do país também ocupou espaço no discurso.
Daniel Chapo referiu-se à violência registada no período pós-eleitoral de 2024 e 2025, apontando os seus efeitos sobre infra-estruturas públicas e privadas, emprego, actividade económica e investimento.
O Presidente da Frelimo destacou, neste contexto, a importância do diálogo e da busca de soluções para as diferenças políticas.
Cabo Delgado mereceu igualmente uma atenção particular.
Chapo reiterou o compromisso de trabalhar pela pacificação da província, afectada desde 2017 por uma insurgência armada, e saudou os jovens das Forças de Defesa e Segurança envolvidos nas operações de combate ao terrorismo.
Ao citar o antigo Presidente sul-africano Nelson Mandela, afirmou que “não há desenvolvimento sem paz e não há paz sem desenvolvimento”.
A mensagem coloca a segurança e a estabilidade como condições necessárias para a recuperação económica, a atracção de investimento e a melhoria das condições de vida das populações.
A 11.ª Conferência Nacional de Quadros da Frelimo foi convocada pelo Comité Central na sua quarta sessão ordinária, realizada em Abril de 2025, na Província de Maputo.
O encontro é apresentado como um exercício de auscultação e debate sobre os principais desafios do país e do partido.
Entre os participantes encontram-se representantes de diferentes sectores sociais, incluindo empresários, académicos, artistas, desportistas, líderes religiosos, camponeses e operários.
Durante os três dias de trabalhos, os delegados deverão analisar as contribuições recolhidas nas estruturas de base da Frelimo desde 15 de Janeiro e apreciar as linhas gerais para a elaboração das teses ao 13.º Congresso do partido.
As recomendações resultantes da conferência deverão ser submetidas à apreciação do Comité Central na reunião marcada para 26 de Agosto, igualmente em Chimoio.
Na abertura do encontro, Daniel Chapo apelou aos participantes para um debate livre e aberto, defendendo a participação colectiva na procura de soluções para os desafios económicos e sociais de Moçambique.
A independência económica, a industrialização, a modernização da agricultura, a valorização dos recursos naturais, a paz e o combate à corrupção passam, assim, a ocupar um lugar central na narrativa política apresentada pela liderança da Frelimo para os próximos 50 anos.
Ângelo Manhengue
Enviado Especial do Jornal Visão Moçambique em Chimoio
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