Turismo, estabilidade macroeconómica e disciplina fiscal impulsionam arquipélago; dependência extractiva e fragilidades institucionais travam aceleração moçambicana
Por Agostinho Muchave (Dados)
Cabo Verde voltou a posicionar-se entre as economias com melhor desempenho recente na África Subsaariana, com taxas de crescimento projectadas entre 4,8% e 5,1%, segundo o mais recente relatório do Banco Mundial. No mesmo período, Moçambique mantém uma trajectória de crescimento positivo, mas mais moderado e estruturalmente desigual, com estimativas situadas entre 4% e 5% em 2025–2026, evidenciando uma divergência que não é conjuntural, mas estrutural.
A leitura comparada dos dados dos últimos 12 meses revela dois modelos económicos distintos: um, baseado em serviços, estabilidade e previsibilidade (Cabo Verde); outro, assente em recursos naturais, com elevada volatilidade e dependência externa (Moçambique).
Cabo Verde: crescimento sustentado, mas vulnerável
O desempenho cabo-verdiano continua ancorado na recuperação robusta do turismo, sector que representa mais de 25% do Produto Interno Bruto (PIB) e que voltou a níveis pré-pandemia. A estabilidade cambial, a disciplina fiscal relativa e a previsibilidade institucional têm sido factores determinantes para restaurar a confiança externa.
Nos últimos 12 meses, o país registou:
- Crescimento do PIB acima da média regional não extractiva
- Aumento do rendimento per capita superior a 45% desde 2014
- Redução da dívida externa em cerca de 9,9 pontos percentuais do PIB
- Consolidação do sector dos serviços como motor económico
Contudo, a base produtiva permanece estreita. Cabo Verde continua dependente de importações de energia e bens alimentares, além da procura turística internacional. A dívida pública, apesar de algum alívio, mantém-se próxima de 100% do PIB — um nível elevado que limita o espaço fiscal.
Moçambique: crescimento com potencial, mas travado por estrutura frágil
Em contraste, Moçambique apresenta uma economia com maior dimensão e potencial de recursos, mas com menor eficiência estrutural. O crescimento recente tem sido impulsionado sobretudo pelos megaprojectos extractivos, com destaque para o gás natural na bacia do Rovuma.
Dados recentes indicam:
- Crescimento do PIB entre 4% e 5% (2025–2026)
- Forte peso do sector extractivo nas exportações
- Inflação relativamente controlada, mas sensível a choques externos
- Dívida pública elevada, ainda que em trajectória de reestruturação
Apesar destes indicadores, o crescimento moçambicano não tem sido inclusivo nem suficientemente diversificado. A economia permanece vulnerável a choques externos, desde flutuações nos preços das commodities até instabilidade interna, como o conflito em Cabo Delgado.
A diferença estrutural: instituições vs recursos
A principal diferença entre os dois países não reside na disponibilidade de recursos, mas na qualidade da gestão económica.
Cabo Verde, mesmo sem recursos naturais relevantes, construiu uma economia baseada em:
- Instituições relativamente estáveis
- Ambiente de negócios previsível
- Forte aposta em capital humano
- Integração nos serviços globais (turismo, transporte, logística)
Moçambique, por sua vez, apresenta:
- Elevada dependência de recursos naturais
- Baixa diversificação económica
- Burocracia e entraves administrativos persistentes
- Fragilidades institucionais e jurídicas
Em termos práticos, Cabo Verde cresce menos em volume absoluto, mas melhor em qualidade. Moçambique cresce mais em potencial, mas perde eficiência na conversão desse crescimento em desenvolvimento.
Onde Moçambique falha — e o que precisa corrigir
A análise dos dados é clara: Moçambique não precisa reinventar a economia, precisa corrigir distorções básicas. Há pontos críticos que continuam a travar o país:
1. Ambiente de negócios disfuncional
A burocracia excessiva, a morosidade nos licenciamentos e a insegurança jurídica afastam investimento produtivo. Sem reformas administrativas profundas, o sector privado continuará limitado.
2. Dependência excessiva de megaprojectos
O crescimento baseado em gás e mineração não gera emprego suficiente nem dinamiza a economia interna. Falta ligação entre grandes investimentos e o tecido empresarial nacional.
3. Baixa diversificação económica
Agricultura, indústria transformadora e serviços continuam subdesenvolvidos. O país exporta matéria-prima e importa produtos acabados — um modelo clássico de dependência.
4. Défice de capital humano
Sem investimento sério em educação técnica e profissional, Moçambique continuará incapaz de absorver tecnologia e gerar valor interno.
5. Fragilidade institucional
Corrupção, instabilidade regulatória e falta de previsibilidade afastam investidores e encarecem o custo do capital.
Caminho para uma transição económica real
Se pretende alcançar um crescimento robusto e sustentável — e reduzir a dependência externa — Moçambique terá de fazer escolhas claras e, sobretudo, executar reformas estruturais sem hesitação:
- Reindustrializar a economia, com foco na transformação local de recursos
- Apostar seriamente na agricultura comercial, com cadeias de valor completas
- Simplificar radicalmente o ambiente de negócios
- Reduzir a dependência da ajuda externa, aumentando receitas internas
- Fortalecer instituições económicas e judiciais
- Canalizar receitas dos recursos naturais para diversificação económica
Potencial não basta
Cabo Verde prova que é possível crescer com poucos recursos, desde que haja disciplina, estratégia e instituições funcionais. Moçambique, com vastos recursos naturais, continua preso a um modelo económico dependente e pouco eficiente.
A diferença não está no que os países têm — está no que fazem com isso.
Sem reformas estruturais profundas, Moçambique continuará a crescer abaixo do seu potencial. Com elas, pode não apenas acompanhar Cabo Verde, mas ultrapassá-lo em escala e impacto económico na região.
O tempo de decisões adiadas já passou.
