
Primeira Mozambique Future Green Business Expo coloca empresas, regulação, financiamento e inovação no centro da transformação ambiental. O país já mobilizou mais de US$ 1,3 mil milhões em financiamento climático, mas persistem limitações regulatórias, institucionais e financeiras à participação do
A transformação ambiental começa a ganhar uma dimensão empresarial mais definida em Moçambique, à medida que regulação, financiamento climático, economia circular e novas exigências de sustentabilidade abrem espaço para actividades económicas que ainda permanecem numa fase inicial de desenvolvimento no País.
Foi neste contexto que a primeira edição da Mozambique Future Green Business Expo 2026, realizada em Maputo, reuniu representantes do Governo, sector privado, academia, sociedade civil, especialistas e novas gerações para discutir soluções capazes de conciliar crescimento económico, protecção ambiental e criação de oportunidades.
Entenda o caso
O encontro colocou em discussão uma questão que começa a ultrapassar a esfera estritamente ambiental: onde está o negócio na transição verde de Moçambique e que condições serão necessárias para atrair empresas e capital para esse mercado?
Os sinais existentes apontam para oportunidades em áreas como energias renováveis, gestão e valorização de resíduos, reciclagem, transportes sustentáveis, agricultura resiliente, saneamento, conservação, economia azul e serviços associados à adaptação climática. A conversão desse potencial em investimento permanece condicionada pela capacidade regulatória, disponibilidade de financiamento, dimensão dos mercados e previsibilidade dos modelos de negócio.
US$ 1,3 Mil Milhões Já Mobilizados Para Financiamento Climático
A Direcção Nacional do Financiamento Climático (DNFC), integrada no Ministério da Planificação e Desenvolvimento, indica ter mobilizado mais de US$ 1,3 mil milhões, financiado acima de 35 projectos e estabelecido mais de oito parcerias estratégicas. A instituição assume como missão a coordenação do financiamento climático e a articulação entre Governo, parceiros internacionais e sector privado.
Estes números mostram que a agenda climática já movimenta volumes financeiros relevantes. A questão económica passa agora pela capacidade de aumentar a participação do investimento privado e criar projectos capazes de gerar receitas e retornos suficientes para atrair capital.
Essa preocupação esteve também no centro do workshop nacional sobre solidez creditícia e soluções inovadoras de financiamento, realizado em Maputo entre 21 e 23 de Setembro. Segundo a Comissão Económica das Nações Unidas para África, Moçambique está a trabalhar no reforço da capacidade para utilizar instrumentos como obrigações temáticas, conversões de dívida por natureza ou clima, blended finance e instrumentos associados à biodiversidade.
O desenvolvimento destes instrumentos pode ser decisivo para sectores verdes caracterizados por elevados investimentos iniciais ou retornos distribuídos por períodos longos.
Capital Privado Continua Condicionado Por Barreiras Estruturais
O próprio enquadramento climático nacional reconhece, contudo, que existem obstáculos significativos.
A NDC 3.0 de Moçambique identifica o reduzido espaço fiscal, vulnerabilidades associadas à dívida, recorrência de choques climáticos, limitações de capacidade institucional e insuficiência dos incentivos de mercado entre os factores que dificultam a mobilização de financiamento climático privado. O documento assinala igualmente que a elevada informalidade limita a capacidade de muitas empresas investirem em tecnologias de baixo carbono.
A leitura ajuda a enquadrar uma das mensagens centrais da Future Green Business Expo: a transformação ambiental precisa de estar ligada às condições económicas e institucionais efectivamente existentes no País.
O jurista e ambientalista Carlos Serra, participante no encontro, defendeu precisamente que Moçambique deve encontrar um processo adequado às suas condições económicas, sociais e institucionais e capaz de converter desafios ambientais em oportunidades de desenvolvimento.
James Robinson, que participou por videoconferência e abordou experiências do Reino Unido e do Ruanda, destacou por sua vez o papel do Estado e das instituições e a necessidade de as decisões serem ajustadas à realidade e à trajectória institucional de cada país.
Esta perspectiva coloca a qualidade das instituições, a execução da legislação e a previsibilidade regulatória entre as variáveis económicas da transição verde.
Resíduos Podem Transformar Custo Ambiental em Cadeia de Valor
A gestão de resíduos apresenta um dos exemplos mais concretos das possibilidades de criação de actividade económica.
Um estudo do Banco Mundial sobre a economia circular dos plásticos em Moçambique identificou uma pequena cadeia de valor envolvendo importação, reciclagem e exportação de plásticos, com potencial de expansão. O Banco assinala, contudo, taxas reduzidas de recuperação de materiais, fragilidades na aplicação do quadro legal, um ambiente empresarial ainda incipiente e forte presença do sector informal na reciclagem.
A formalização e integração económica desta actividade pode criar negócios na recolha, triagem, transformação, logística, comercialização de materiais recuperados e produção de novos produtos.
O movimento já começa a aparecer em iniciativas concretas. Em Agosto, Governo, Município de Maputo, Banco Mundial, instituições financeiras, empresas e organizações da sociedade civil discutiram formas de ampliar a recuperação de materiais, fortalecer a reciclagem e mobilizar investimento para tornar a gestão de resíduos da capital circular e financeiramente sustentável, segundo o Projecto de Transformação Urbana de Maputo.
O Banco Mundial mantém igualmente em Moçambique uma intervenção destinada a fortalecer a reciclagem e recuperação de resíduos, incluindo plásticos, em Maputo, e outra orientada para criar melhores condições à participação e ao investimento privado na economia azul e geração de emprego.
A transformação do mercado também passa pelas regras impostas às empresas.
Durante a Future Green Business Expo, João Cipriano e Leonardo Solila, da Direcção Nacional do Ambiente e Mudanças Climáticas, destacaram instrumentos que regulam a gestão e controlo do saco de plástico, resíduos perigosos, produtos químicos e poluentes orgânicos persistentes.
A existência destas normas cria obrigações de conformidade, mas também procura por serviços especializados: recolha e tratamento de resíduos, consultoria ambiental, tecnologias de controlo, certificação, monitorização, logística reversa e substituição de materiais.
É neste ponto que regulação ambiental e política económica começam a cruzar-se. Regras claras e aplicadas de forma consistente podem criar procura e dar previsibilidade a empresas que investem em soluções ambientais. Incerteza regulatória e fraca execução produzem o efeito contrário, reduzindo os incentivos para empresas que suportam custos de conformidade.
Empresas Precisam de Encontrar Retorno Económico na Sustentabilidade
Na abertura da Expo, o Director-Geral da Ecobrand Moçambique, Faustino Quissico, defendeu a integração da sustentabilidade nas decisões empresariais e institucionais, considerando que esta deve traduzir-se em oportunidades concretas de transformação.
O que acontece agora
A afirmação toca numa questão central para o desenvolvimento da economia verde: empresas investem de forma sustentável quando conseguem identificar mercado, procura, financiamento e retorno.
O desafio consiste, portanto, em construir cadeias de valor nas quais a solução de um problema ambiental gere simultaneamente receitas, emprego, produtividade ou redução de custos.
Existem já exemplos dessa lógica. Num projecto de saneamento apoiado pelo Banco Mundial, o tratamento de lamas fecais está a criar possibilidades de reutilização como fertilizante, enquanto operadores municipais desenvolvem modelos de negócio associados à economia circular.
No Norte do País, o Banco Mundial destaca igualmente empresas apoiadas pelo CONECTA Negócios, incluindo uma actividade de gestão e reciclagem de resíduos sólidos perigosos provenientes dos grandes projectos. A instituição identifica, contudo, o acesso ao financiamento como uma das principais barreiras enfrentadas pelas micro, pequenas e médias empresas moçambicanas.
Energia Pode Concentrar Parte Substancial do Investimento Verde
A preparação da NDC 3.0 coloca a Estratégia de Transição Energética entre os principais instrumentos para a redução de emissões. Segundo informação divulgada pela Associação Moçambicana de Energias Renováveis, o sector de energia, incluindo transportes, representa cerca de 33% do potencial de redução de emissões associado à implementação da Estratégia de Transição Energética.
A dimensão económica inclui geração renovável, redes eléctricas, soluções descentralizadas, eficiência energética, mobilidade, armazenamento e serviços técnicos associados.
O peso do sector já aparece na composição do financiamento ao desenvolvimento. O AfDB indica que energia representa a maior parcela da sua carteira em Moçambique, seguida por transportes e agricultura, sectores que também concentram parte relevante das necessidades de adaptação e transformação estrutural do País.
A Future Green Business Expo pretende inserir-se precisamente neste espaço.
A primeira edição combinou fórum de debate, exposição de soluções verdes e oficinas ambientais. Segundo a organização, a intenção é consolidar a iniciativa como plataforma de ligação entre empresas, instituições públicas, investidores, especialistas, empreendedores e comunidades, permitindo que projectos sustentáveis encontrem parceiros e evoluam para soluções concretas.
A Mozambique Future Green Business Expo 2026, apresenta-se com a ambição de aproximar necessidades ambientais, soluções empresariais e financiamento, por forma a criar condições para que iniciativas sustentáveis evoluam para projectos economicamente viáveis.
Moçambique apresenta necessidades significativas de adaptação climática, infra-estruturas, saneamento, gestão de resíduos, energia e protecção dos recursos naturais. Estes sectores representam também espaço para investimento, inovação, desenvolvimento de fornecedores e criação de novas actividades empresariais.
Fonte original: O.Económico







