A participação no Fórum de Negócios Moçambique–China 2026, realizado em Abril na província de Hunan sob liderança do Presidente Daniel Chapo, deixou entre empresários moçambicanos um sentimento de “optimismo renovado e pragmático”, marcado por uma mudança de tom: menos diplomacia, mais compromissos concretos.

Para Pedro Silva, presidente da Associação das Pequenas e Médias Empresas (APME), “o evento não foi apenas protocolar; houve a assinatura de múltiplos acordos-quadro estratégicos”, com destaque para áreas emergentes como energia verde e biomedicina. Segundo o responsável, a mensagem foi clara: os investidores chineses são chamados a ir além da extracção de recursos e a apostar na transformação local de matérias-primas. “Isso abre portas para subcontratações e crescimento das PME nacionais”, afirmou.
Os sectores tradicionais — agricultura, mineração, energia e logística — mantêm-se como pilares da cooperação, mas a tónica na modernização tecnológica introduz “um novo fôlego para quem busca inovação”. Na leitura de Pedro Silva, “Moçambique está a posicionar-se como um destino competitivo”, com o Governo a assumir-se como facilitador de um processo liderado pelo sector privado.
Peso das PME e papel da APME

A APME representa um segmento que, segundo estimativas correntes no país, constitui mais de 90% do tecido empresarial e é responsável por uma fatia significativa do emprego urbano. A associação actua na defesa de melhores condições de acesso ao financiamento, simplificação de processos administrativos e capacitação empresarial.
Para Pedro Silva, o impacto dos acordos dependerá da capacidade de integrar as PME nas cadeias de valor. “Se não houver mecanismos claros de inclusão, o investimento pode não chegar à base empresarial”, advertiu, defendendo políticas activas de conteúdo local e programas de formação técnica alinhados com as novas áreas de investimento.
Urgência política e prioridades económicas

A urgência foi sublinhada pelo próprio Chefe de Estado. “O comboio já está a andar e o comboio não espera”, declarou Daniel Chapo, apelando à entrada célere de investidores no mercado nacional. A mensagem presidencial aponta para prioridades claras: infra-estruturas — como estradas, pontes e portos —, energia com ênfase nas renováveis, mineração e agricultura. O objectivo, frisou, é construir “com foco, resiliência e determinação” uma base sólida de autonomia económica.
Dados recentes indicam que o investimento directo estrangeiro em Moçambique continua fortemente concentrado nos megaprojectos extractivos, com menor penetração nas cadeias produtivas locais — um desequilíbrio que o Governo pretende corrigir com esta nova vaga de acordos.
Desafios estruturais travam tecnologia

No plano interno, os desafios permanecem evidentes. “Sem internet estável e energia, a tecnologia não escala”, alertou Pedro Silva, defendendo que o desenvolvimento tecnológico exige tanto infra-estruturas físicas como um ecossistema empresarial funcional. Apesar de reconhecer “uma juventude criativa que precisa de suporte estruturado para florescer”, aponta a escassez de capital de risco como entrave significativo.

Para ultrapassar essa limitação, defende a criação de redes de investidores-anjo e programas de consultoria capazes de apoiar startups, sobretudo nas áreas de gestão e marketing. “A chave está em transformar o potencial em eficiência operacional real”, concluiu.
