Por:Fábio Muaile
Exposição fotográfica em Maputo revela o impacto da cooperação italiana no desenvolvimento de Manica e destaca o potencial agrícola, social e económico da província
Maputo – O histórico Museu de História Natural de Maputo transformou-se, esta semana, num espaço de reflexão sobre desenvolvimento, agricultura, cultura e cooperação internacional ao acolher a exposição fotográfica “Humus”, da autoria do renomado fotojornalista italiano Marco Palombi. Integrada nas celebrações da Festa da República Italiana em Moçambique, a mostra reúne 22 fotografias que retratam histórias reais de transformação social e económica na província de Manica, impulsionadas por projectos apoiados pela Cooperação Italiana.
Mais do que uma exposição artística, “Humus” apresenta-se como um documento visual de investigação social, oferecendo ao público uma visão aprofundada sobre os resultados concretos de décadas de colaboração entre Itália e Moçambique em sectores estratégicos para o desenvolvimento sustentável.
Museu restaurado acolhe uma narrativa de desenvolvimento
Recentemente reabilitado através do Programa RINO, o Museu de História Natural de Maputo voltou a afirmar-se como uma das principais referências científicas e culturais do país. O edifício histórico serviu de palco para a inauguração da exposição, realizada na segunda-feira, 1 de Junho, perante representantes do Governo, do sector académico, do corpo diplomático e da sociedade civil.
As imagens captadas por Marco Palombi conduzem os visitantes por uma viagem que atravessa comunidades rurais, explorações agrícolas, iniciativas de empreendedorismo feminino e processos de consolidação da paz, evidenciando a relação directa entre investimento social e desenvolvimento económico.
Com mais de três décadas de experiência em fotojornalismo internacional, Palombi constrói uma narrativa visual centrada nas pessoas, revelando rostos, histórias e desafios que frequentemente permanecem invisíveis nos relatórios estatísticos.
Manica no centro de uma estratégia regional de crescimento
Entre os temas mais evidentes da exposição encontra-se o potencial agrícola da província de Manica, considerada uma das regiões mais férteis do país. As fotografias documentam a evolução da cadeia de valor do café, o fortalecimento das cooperativas locais e o aumento da participação das mulheres nas actividades produtivas.
A mostra surge num momento estratégico, coincidindo com o avanço dos preparativos para a implementação do Centro Agroalimentare de Manica (CAAM), considerado um dos projectos estruturantes do Plano Mattei para África.
Avaliado em cerca de 38 milhões de euros, o empreendimento deverá funcionar como uma plataforma integrada de processamento, armazenamento e distribuição de produtos agrícolas, com impacto directo na dinamização do comércio ao longo do Corredor da Beira e em toda a região da África Austral.
Especialistas acreditam que o CAAM poderá contribuir significativamente para a redução das perdas pós-colheita, aumentar a competitividade dos produtores locais e fortalecer a integração de Moçambique nas cadeias regionais de abastecimento alimentar.
Cooperação que vai além dos indicadores económicos
Durante a cerimónia de inauguração, o Embaixador da Itália em Moçambique, Gabriele Annis, destacou que os resultados da cooperação bilateral não podem ser avaliados apenas através de indicadores económicos.
“Quem visitou os campos de Manica sabe que o desenvolvimento não se mede apenas em números, mas também nos rostos, nos gestos e nas palavras. É este humus – humano antes mesmo de agrícola – que a Itália acompanha há cinquenta anos e que pretende continuar a apoiar com renovado empenho.”
A declaração sintetiza o conceito central da exposição. O termo latino “humus”, associado à camada fértil do solo, é utilizado como metáfora para representar as condições humanas, sociais e institucionais que permitem o florescimento de oportunidades e a construção de comunidades mais resilientes.
Fotografia encontra sabedoria popular moçambicana
Um dos aspectos mais inovadores da mostra reside na integração entre arte visual e património cultural imaterial. Cada uma das 22 fotografias encontra-se acompanhada por um provérbio tradicional moçambicano, estabelecendo uma ponte entre a narrativa contemporânea do desenvolvimento e os ensinamentos transmitidos ao longo de gerações.
A iniciativa reforça a valorização da identidade cultural moçambicana e demonstra como a sabedoria popular continua a desempenhar um papel relevante na interpretação dos desafios e das oportunidades do presente.
Segundo os organizadores, a escolha dos provérbios pretende estimular uma leitura mais profunda das imagens, incentivando os visitantes a reflectirem sobre temas como trabalho, solidariedade comunitária, perseverança, produção agrícola e construção da paz.
Personalidades prestigiam inauguração
A abertura oficial contou com a presença de diversas individualidades da vida académica, cultural e diplomática nacional, entre elas o Reitor da Universidade Eduardo Mondlane, Manuel Guilherme Júnior, e a Directora do Museu de História Natural de Maputo, Gaby Monteiro.
Os participantes destacaram a importância de iniciativas que aproximam cultura e desenvolvimento, promovendo simultaneamente a valorização do património nacional e o fortalecimento das relações internacionais.
Exposição integra agenda cultural MOZITA2026
A exposição “Humus” faz parte da plataforma cultural MOZITA2026, iniciativa que promove intercâmbios culturais e económicos entre Moçambique e Itália.
O projecto conta com o apoio de importantes empresas que operam no mercado moçambicano, incluindo Renco, Inalca, Eni, Cotur, BCI e MSC, reforçando a crescente participação do sector privado em iniciativas ligadas à cultura e ao desenvolvimento social.
Uma reflexão sobre o futuro
Mais do que apresentar imagens de paisagens rurais e actividades produtivas, “Humus” convida os visitantes a reflectirem sobre a importância da cooperação internacional, do investimento nas comunidades e da valorização dos recursos locais como pilares para um desenvolvimento inclusivo.
Ao documentar experiências concretas de transformação em Manica, a exposição demonstra que a fertilidade de um território não depende apenas da qualidade dos seus solos, mas também da capacidade das suas instituições, comunidades e parceiros de cultivarem oportunidades para as gerações futuras.
Patente ao público até 1 de Julho de 2026, a mostra constitui uma oportunidade singular para estudantes, investigadores, profissionais do desenvolvimento e amantes da fotografia compreenderem, através da força das imagens, como a cooperação internacional pode traduzir-se em progresso real e duradouro nas comunidades moçambicanas.
