
INTEGRITY-MOÇAMBIQUE, 28 de Setembro de 2026-Ex-candidato presidencial classifica a intervenção do Chefe de Estado a margem da 81.ª Assembleia Geral das Nações Unidas como o “golpe final” no processo de diálogo e reconciliação em Moçambique.
A reação de Venâncio Mondlane ao discurso proferido pelo Presidente da República, Daniel Chapo, à margem da 81.ª Assembleia Geral das Nações Unidas, não tardou. Mediante uma publicação em sua página oficial do Facebook, o ex-candidato presidencial da oposição atualmente que a intervenção do Chefe de Estado representou um ponto de ruptura definitiva no processo de pacificação nacional.
“ Esse discurso, proferido na sala anexa das Nações Unidas, representou a última pá de areia lançada sobre o caixão do Diálogo e da Reconciliação Nacionais, explodindo a ponte para a unidade e a coesão nacional ”, escreveu Mondlane, metáfora dura que sugere o fim das esperanças de um entendimento político no país.
Entenda o caso
A reação surge na sequência da intervenção de Daniel Chapo em Nova Iorque, onde o Presidente moçambicano adotou um tom de rara contundência. Longe da diplomacia protocolar habitual, Chapo denunciou aquilo que classificou como uma conspiração internacional e interna destinada a derrubar o governo legitimamente eleito.
No seu discurso, o Chefe de Estado indicou o dedo ao “ autoproclamado vencedor ” das eleições de Outubro de 2024, numa referência inequívoca a Mondlane, acusando-o de fazer parte de uma “ estratégia bem montada para o assalto ao poder”. Chapo alegou que a onda de violência pós-eleitoral, que assolou o país entre 2024 e 2025, foi minuciosamente coordenada e financiada por “ agentes externos e internos”.
O Presidente enumerou uma série de alvos sistemáticos, incluindo instituições do Estado, forças de defesa e segurança, infraestruturas económicas de interesse e líderes comunitários que não se alinharam à “ onda de violência ”. Numa das passagens mais polémicas, Chapo referiu-se ao envolvimento de grupos de milícias locais, os “ naparamas ”, e à mobilização massiva de jovens das zonas rurais para as capitais provinciais, como prova de um plano consolidado de desestabilização.
O discurso de Chapo ocorre num momento particularmente especial. Moçambique encontra-se mergulhado num processo de diálogo político nacional inclusivo, passando fim à violência pós-eleitoral que, segundo o próprio Presidente, atingiu ocorrências nunca antes vistas na história recente do país, tanto em abrangência territorial como em prejuízos humanos e materiais.
Ao classificar a violência como uma “ ditadura autêntica ” promovida pelos opositores, Chapo procurou inverter a narrativa, apresentando-se como o defensor da democracia e da legalidade constitucional.
A publicação de Venâncio Mondlane, ao afirmar que o discurso “ explodiu a ponte ” para a unidade, sinalizando que uma via de diálogo, já fragilizada, pode ter sofrido uma reviravolta irreparável. Para o antigo candidato, a intervenção de Chapo na ONU não foi um apelo à paz, mas sim uma declaração de guerra política que inviabiliza qualquer acordo futuro.
Enquanto o Presidente moçambicano reafirma a sua legitimidade democrática e o compromisso com o diálogo no plano internacional, a oposição, através das palavras de Mondlane, acusa o Governo de usar a tribuna das Nações Unidas para consolidar uma narrativa de vitimização que ignora as causas profundas da crise política e social que o país atravessa. (Paulo Manjate)
Fonte original: Integrity Magazine




