Artigo de opinião:
Por Luís Vasconcelos – Um olhar atento
A partir de 1 de Maio de 2026, o som que durante anos marcou o ritmo das cidades moçambicanas — o zumbido ágil das motas — poderá transformar-se em silêncio forçado. Não por evolução natural do sistema de transportes, mas por imposição legal.
O Decreto n.º 78/2025 vem proibir a actividade de mototáxi nas zonas metropolitanas, abrangendo cidades como Maputo, Matola, Beira, Nampula e outras. À primeira vista, a medida pode parecer um passo rumo à organização urbana e à segurança rodoviária. Mas, olhando com atenção, revela-se um corte profundo numa das engrenagens mais resilientes da economia informal.
Durante anos, o mototáxi não foi apenas um meio de transporte. Foi refúgio económico. Foi alternativa para milhares de jovens sem emprego formal. Foi solução onde o Estado ainda não conseguiu chegar com eficácia. Cada mota na estrada representa mais do que mobilidade — representa sustento, dignidade e sobrevivência.
Retirar essa actividade de forma abrupta é, na prática, lançar milhares de famílias para uma incerteza imediata. É transferir para o cidadão comum o peso de uma decisão que não veio acompanhada de soluções visíveis.
Mas o impacto não se limita ao desemprego.
As cidades moçambicanas cresceram para além da sua capacidade de planeamento. Bairros distantes, ruas estreitas, acessos precários — realidades onde o transporte convencional raramente entra com eficiência. É nesses espaços que o mototáxi se tornou essencial. Não como luxo, mas como necessidade.
Sem ele, o que acontece?
A resposta é simples e preocupante: isolamento. Populações inteiras poderão ver-se privadas de mobilidade rápida. Trabalhadores chegarão mais tarde. Estudantes enfrentarão maiores dificuldades. Pequenos negócios perderão dinamismo. O tempo — esse recurso invisível — tornar-se-á ainda mais caro.
E há uma contradição que não pode ser ignorada: enquanto se critica o impacto das motas no trânsito, esquece-se que elas são, muitas vezes, a solução para o próprio congestionamento. Ágeis, adaptáveis, capazes de contornar o caos urbano, as motas preenchem falhas que o sistema formal ainda não conseguiu resolver.
Se o problema é a desordem, a resposta não deveria ser a proibição total, mas sim a organização. Regulamentar, formar, fiscalizar — caminhos mais difíceis, sim, mas também mais justos e sustentáveis.
Ao optar pela proibição, o Estado escolhe o caminho mais rápido, mas não necessariamente o mais eficaz.
E quando decisões desta magnitude são tomadas sem transição clara, sem diálogo amplo e sem alternativas concretas, o risco não é apenas económico — é social.
O silêncio das motas poderá, em breve, dar lugar a outro som: o da insatisfação.
Porque quando se retira o sustento de muitos sem oferecer caminhos, não se elimina um problema — transforma-se em outro, maior e mais profundo.
Moçambique precisa de ordem. Precisa de segurança. Mas precisa, acima de tudo, de equilíbrio.
E o verdadeiro desafio não está em proibir o movimento das motas, mas em garantir que, com elas fora das estradas, o país não fique parado.
Luís Vasconcelos- Um olhar atento
