O Governo de Moçambique intensificou, nos últimos dias, contactos estratégicos com entidades governamentais e empresariais norte-americanas, numa ofensiva diplomática que combina saúde pública, grandes projectos de infraestruturas e investimentos nos sectores do gás, energia e recursos minerais.
Um dos pontos de destaque desta aproximação é a doação de 10 mil kits de diagnóstico de malária pela empresa norte-americana Dayak Health, num contexto em que a doença continua a representar um dos maiores desafios de saúde pública no país. Dados partilhados pelas autoridades indicam um aumento de cerca de 14% dos casos de malária nos últimos nove meses, pressionando ainda mais o sistema nacional de saúde, sobretudo nas zonas rurais.

A Dayak Health manifestou disponibilidade para ir além da doação imediata, assumindo a intenção de instalar unidades de produção de kits de diagnóstico em Moçambique, com impacto direto na criação de emprego e na expansão do acesso a meios de testagem, não só para o mercado nacional, mas também para países da região.
Os kits doados incorporam tecnologia de rastreio digital, permitindo não apenas o diagnóstico e tratamento rápido, mas também a recolha de dados epidemiológicos em tempo real, considerados cruciais para a planificação, monitoria e tomada de decisão em políticas públicas de saúde.
MCC mantém Projecto com ajustes e possível expansão
Ainda em Washington, a Ministra dos Negócios Estrangeiros e Cooperação manteve encontros com a direcção executiva para África do Millennium Challenge Corporation (MCC), onde foi reiterada a continuidade do programa compacto em Moçambique, embora com ajustes técnicos e operacionais.
O foco principal do projecto permanece na província da Zambézia, com destaque para a construção da ponte sobre o rio Lúrio, uma infraestrutura considerada estratégica para a mobilidade, integração económica e acesso a mercados. No entanto, o Governo moçambicano apresentou argumentos para a ampliação da intervenção, tendo sido acolhida a possibilidade de inclusão de troços rodoviários na província de Nampula, uma das mais populosas do país.
Gás, Energia e Grafite no centro das atenções
A cooperação bilateral ganhou ainda maior densidade política nas conversações com o vice-secretário do Departamento de Estado norte-americano. Segundo a diplomacia moçambicana, os Estados Unidos consideram o projecto de gás natural em Moçambique, avaliado em cerca de 20 mil milhões de dólares, como um dos seus principais investimentos estratégicos em África.
Para além do gás, Washington demonstrou interesse continuado no projecto de grafite de Balama, bem como no potencial de Moçambique como fornecedor regional de energia eléctrica, num contexto em que o país é visto como peça-chave para a segurança energética da África Austral.
Segurança continua a ser condição central
Apesar do ambiente de cooperação, os Estados Unidos sublinharam a necessidade de Moçambique reforçar a segurança interna, com enfoque no combate ao terrorismo, ao crime organizado e à protecção de infraestruturas críticas. A estabilidade continua a ser apresentada como condição essencial para a consolidação dos investimentos e para a credibilidade internacional do país.
No conjunto, os encontros em Washington revelam uma estratégia clara de Maputo: transformar desafios estruturais em oportunidades de cooperação, num equilíbrio delicado entre ajuda humanitária, interesses económicos e exigências de governação e segurança.
